Olga Orozco (Argentina, 1920-1999)



Antigas traduções do blog antigo dessa poeta que tanto gosto, Olga Orozco.

O RETOQUE FINAL

É este aquele que amavas.
A este rosto falaz que burla seu modelo de lenda,
a estes olhos imóveis que medem a vantagem de ter invertido a cegas teu destino,
a estas mãos mesquinhas que apostam à pura terra sua ganância,
consagraste os anos do pesar e da espera.
Esta é a imagem real que provocou os belos espelhismos da ausência:
corredores sedosos iluminados pela repetição do eco,
pelas sucessivas esfíngies do erro;
desvãos até o céu, subsolos até o recuperado paraíso,
quartos à deriva, quartos como de plumas e diamantes
nos quais provavas cada noite os sóis e as chuvas de teu sempre jamais,
enquanto ele sorria, estranhamente imóvel, absorto no abraço da perduração.
Ele estava no alto de qualquer escadaria,
ele saía por todas as janelas para o vôo nupcial,
ele te chamava por teu verdadeiro nome.

Construções instáveis,
sustentadas apenas pelo tremor de um beijo na memória,
por essas vibrações com que volta um adeus;
cárceres do destino, cárceres insensatos que o mesmo Piranesi envidaria.
Basta um sopro de areia, um encontro de laços desatados,
uma palavra fria como a lixa e a suspeita,
e essa urdidura de lamparinas e vapor se desmorona com um ranger de asas,
se dissolve como templo de mel, como pirâmide de neve.
Doçuras para moscas, ruínas para o enxame da profanação.
Querias incendiar os fantasiosos depósitos do ontem,
romper as maquinarias com que forjou a recordação das armadilhas para hoje,
o inútil e pérfido disfarce para amanhã.
Ou querias, ainda mais, não ter olhado nunca o aleivoso rosto,
não ter visto jamais o que não foi.
Porque sabes que ao final dos últimos fulgores, das útimas névoas,
acabará por despregar-se, voraz como uma praga, outra vez todavia,
a inevitável fita de toda sua existência.
Ele passará outra vez nessa rajada de velozes visões, de dias migratórios;
ele, com seu rosto de outrora, com tua história inconclusa,
com o amor saqueado à insuportável pele da mentira,
abaixo desta queimadura.

COM ESTA BOCA, NESTE MUNDO…

Não te pronunciarei jamais, verbo sagrado,
ainda que me deixe as gengivas de cor azul,
ainda que ponha debaixo de minha língua uma pepita de ouro,
ainda que derrame sobre meu coração uma caldeira de estrelas
e passe pela minha frente a corrente secreta dos grandes rios.

Talvez tenhas fugido para os cantos da noite da alma,
onde não é possível chegar desde nenhuma lâmpada,
e não há sombra que guie meu vôo pelo umbral,
nem memõria que venha de outro céu para encarnar esta dura neve
onde só se inscreve o roçar da rama e a lamúria do vento.

E nem um só tremor que faça sobressaltar as mudas pedras.
Temos falado demasiado do silêncio,
o temos condecorado assim como a um vigia no arco final,
como se nele estivesse o esplendor depois da queda,
o triunfo do vocábulo com a língua cortada.

Ah, não se trata de canção, tampouco de soluço!
Já disse o amado e o perdido,
travei com cada sílaba os bens que mais temi perder.
Ao largo do corredor sonha, ressoa a tenaz melodia,
retumbam, se propagam como o trono
umas poucas moedas caídas de visões ou arrebatadas à obscuridade.
Nosso grande combate foi tambem um combate a morte com a morte, poesia.
Ganhamos. Perdemos, porque como nomear com esta boca,
como nomear neste mundo com esta boca apenas
neste mundo com esta boca
apenas?

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~ por jeffvasques em 06/04/2011.

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