Ainda em Orozco


Em viagem… segue uma tradução do antigo blog…

DENSOS VÉUS TE COBREM, POESIA (Olga Orozco)

Não é neste vulcão que há debaixo de minha língua falaz onde te busco,
nem esta espuma azul que ferve e se cristaliza na minha cabeça,
senão nessas regiões que mudam de lugar quando se nomeiam,
como o secreto eu e as indecifráveis colônias de outro mundo.
Noites e dias com os olhos abertos sob o insuportável pestenajar do sol,
espiando no céu um sinal,
a sombra de um eclipse fulgurante sobre o rosto do tempo,
uma fissura branca como um corte de Deus na muralha do planeta.
Algo com que iluminar as sílabas dispersas de um código perdido
para poder ler nestas pedras meu costado invisível.

Mas nenhum pentecostes de asas ardentes descendo sobre mim.
Variações de fumaça, retalhos de trevas com máscaras de chumbo,
meteoros inominados que me subtraem a visão entre um bater de portas!
Noites e dias fortificada na clausura desta pele,
escavando no sangue como uma toupeira,
removendo no ossos as fundações e lápides,
em busca de um indício como de um talismã que me reverta à divisão e a queda.
Onde foi sepultada a semente de meu pequeno verbo mesmo sem formular?
Em que Delfos perdido na corrente
sobem como o vapor as vozes desprendidas que reclamam minha voz para manifestar-se?
E como agarrar o signo à deriva – esse e não qualquer outro –
em que deve encarnar cada fragmento deste imenso silêncio?
Não há resposta que estoure como uma constelação entre farrapos noturnos,
Apenas se fantasmas insondáveis das profundidades,
territórios que comunicam com pântanos,
lascas de palavras e seixos que se dissolvem no insolúvel nada!

No entanto
agora mesmo
ou alguma vez
não sei
quem sabe
pode ser
através das duplas espessuras que fecham a saída
ou acaso suspendida por um erro de séculos na rede do instante
cri te ver surgir como uma ilha
quiçá como uma barca entrea as nuvens ou um castelo em que alguém canta
ou uma gruta que avança tormentosa com todos os sobrenaturais fogos acesos.

Ah, as mãos cortadas,
os olhos que avivam e o ouvido que troveja!
Um punhado de polvo, meus vocábulos!

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~ por jeffvasques em 13/04/2011.

Uma resposta to “Ainda em Orozco”

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