Inventário de Cicatrizes


Cela do DOPS com dízeres da época da ditadura nas paredes (foto de Mariana Schmitz)

Por um desses acasos felizes do ócio, enquanto perambulava por um sebo perto de casa, cruzei com o livro de poesias “Inventário de Cicatrizes” de Alex Polari de Alverga, poeta-lutador que sobreviveu a 9 anos nos porões da ditadura brasileira (1971-1980). Comprei imediatamente e ansioso já vim lendo no caminho pra casa. É um livro muito forte e belíssimo… acredito que um marco na “poesia de luta” brasileira. Inacreditável como Polari consegue manter, apesar da situação em que se encontrava, o humor, a auto-ironia, e uma linguagem tão despojada e simples capaz de nos dar uma visão clara e interessante da sua luta, de suas contradições, da tortura e da vida cotidiana que ia se tornando extraordinária.

Alex Escobar, na apresentação do livro (que foi vendido para reverter fundos para o Comitê Brasileiro pela Anistia) nos diz: “Alex político e Alex poeta, como alguns dos seus muitos companheiros em diferentes prisões do país, alguns já libertados, outros exilados, poderão significar toda uma postura e uma produção artística (na poesia, na pintura e no romance) que rompe com os padrões estéreis e reacionários de até então.”

Selecionei 5 das melhores e mais representativas poesias do livro… a 1a poesia abaixo, que dá nome ao livro, traz essa imagem terrível de um Congresso mundial dos mutilados, de todos aqueles que foram marcados pelos porões do ultra-conservadorismo manifesto nas ditaduras espalhadas pelo planeta. Não há, nesse poema, passar de mão na cabeça ou falso otimismo… as marcas não serão apagadas. Pelo contrário, as chagas devem ser inventariadas, estudadas, debatidas, divulgadas amplamente pra que se saiba quem são esses “seres” capazes de tudo para manter a vida miserável, para defender o funcionamento do sistema capitalista.

Bom, pensei em falar um pouco sobre cada um dos poemas, mas agora resisti… deixo que o contato seja direto… só queria apontar que “ESCUSAS POÉTICAS”, o último poema desta seleção, é uma das poesias mais importantes, ao meu ver, da poesia de luta brasileira… é um marco, é um manifesto das potencialidades e limites da poesia dentro da luta revolucionária, é uma defesa da poesia e da vida dentre os próprios companheiros de trincheira, é fazer a arte expressão do concreto e não apenas do que sonhamos ou desejamos que seja a vida… logo, se sou esse ser contraditório, que apesar de mergulhado no modo de vida burguês luta pra superá-lo, minha poesia também deve ser essa tensão entre minhas contradições e a luta por sua superação. Não há porque fingir o panfleto, forçar a palavra de ordem… é preciso que se “cante e anuncie de todas as formas possíveis”… fantástico!

INVENTÁRIO DE CICATRIZES

Estamos todos perplexos
à espera de um congresso
dos mutilados de corpo e alma.

Existe espalhado por aí
de Bonsucesso à Amsterdam
do Jardim Botânico à Paris
de Estocolmo à Frei Caneca
uma multidão de seres
que portam pálidas cicatrizes
esmanecidas pelo tempo
bem vivas na memória envoltas
em cinzas, fios cruzes
oratórios,
elas compõem uma catedral
de vítimas e vitrais
uma Internacional de Feridas.

Quem passou por esse país subterrâneo e não oficial
sabe a amperagem em que opera seus carrascos
as estações que tocam em seus rádios
para encobrir os gritos de suas vítimas
o destino das milhares de viagens sem volta.

Cidadãos do mundo
habitantes da dor
em escala planetária

todos que dormiram no assoalho frio
das câmaras de tortura
todos os que assoaram
os orvalhos de sangue de uma nova era
todos os que ouviram os gritos, vestiram o capuz
todos os que gozaram coitos interrompidos pela morte
todos os que tiveram os testículos triturados
todas as que engravidaram dos próprios algozes
estão marcados,
se demitiram do direito da própria felicidade futura.

POEMA DE 22 DE MARÇO

(Para Gerson e Maurício)

Ele caiu no asfalto
não pode reagir
faltou o pente sobressalente
faltou a cobertura
faltou a sorte
faltou o ar.

Ele foi levado ainda com vida
dentro de um porta-malas
a camisa rasgada
a calça Lee suja de sangue.

Era preciso avisar Teresa
era preciso fingir serenidade no espelho
era preciso comer rápido o sanduíche de queijo
era preciso cobrir os pontos
era preciso esvaziar o aparelho
era necessário escravizar o medo
e domesticar o ódio

Quando cheguei em casa era noite
vi as portas abertas
as lâmpadas acesas
as mariposas alertas
as certezas cobertas de poeira
a chave na janela
os cartazes que nos punham a cabeça à prêmio
e a chuva que caía no telhado
como os passos de pássaros
esparsos

E saí por aí, sozinho,
com as mãos nos bolsos
pensando no impasse da luta nas cidades
pensando no isolamento político
pensando na nossa situação
e no nosso despreparo,
me dividindo entre o esforço
de analisar as coisas com frieza
e a ânsia de encher de tiros
o primeiro camburão que passasse.

Adiei as reflexões maiores
adiei as conclusões mais penosas
visto que o cerco se fechava em meu redor
e um bom guerrilheiro
respeita sua própria paranóia
por uma questão de sobrevivência,
por uma questão de instinto.

MORAL E CÍVICA II

Eu me lembro
usava calças curtas e ia ver as paradas
radiante de alegria.
Depois o tempo passou
eu caí em maio
mas em setembro tava pelaí
por esses quartéis
onde sempre havia solenidades cívicas
e o cara que me tinha torturado
horas antes,
o cara que me tinha dependurado
no pau-de-arara
injetado éter no meu saco
me enchido de porrada
e rodado prazeirosamente
a manivela do choque
tava lá – o filho da puta
segurando uma bandeira
e um monte de crianças,
emocionado feito o diabo
com o hino nacional.

OS PRIMEIROS TEMPOS DA TORTURA

Não era mole aqueles dias
de percorrer de capuz
a distância da cela
à câmara de tortura
e nela ser capaz de dar urros
tão feios como nunca ouvi.

Havia dias que as piruetas no pau-de-arara
pareciam rídiculas e humilhantes
e nus, ainda éramos capazes de corar
ante as piadas sádicas dos carrascos.

Havia dias em que todas as perspectivas
eram prá lá de negras
e todas as expectativas
se resumiam à esperança algo céticas
de não tomar porradas nem choques elétricos.

Havia outros momentos
em que as horas se consumiam
à espera do ferrolho da porta que conduzia
às mãos dos especialistas
em nossa agonia.
Houve ainda períodos
em que a única preocupação possível
era ter papel higiênico
comer alguma coisa com algum talher
saber o nome do carcereiro de dia
ficar na expectativa da primeira visita
o que valia como uma aval da vida
um carimbo de sobrevivente
e um status de prisioneiro político.

Depois a situação foi melhorando
e foi possível até sofrer
ter angústia, ler
amar, ter ciúmes
e todas essas outras bobagens amenas
que aí fora reputamos
como experiências cruciais.

REQUERIMENTO CELESTE COM DIGRESSÕES JURÍDICAS
(POR OCASIÃO DO POUSO DA VIKING 1 EM MARTE)

Resolvi denunciar às amebas de Marte
(caso elas existam)
a minha sui generis situação jurídica
de condenado duplamente
à prisão perpétua,
olvidado em várias esferas
absolvido em uma das vidas
e esperando recurso da outra
e tendo ainda por cima
além de certas transcendências sustadas
mais quarenta e quatro anos de reclusão
a descontar não sei de qual existência.

Resolvi portanto,
romper meu silêncio de quase 6 anos
e denunciar em outros astros
a situação atroz que aqui prevalece
tendo o Ministério Público
pedido duas vezes minha condenação à morte.
Assim sendo, continuo sem grilhetas
cumprindo minha condenação
à danação perpétua
neste pedregulho
cheio de poluição
ditaduras e injustiças
que convencionaram chamar planeta
em eterna órbita
sem ternura ao redor
de uma estrela de 5a grandeza.
Nestes termos,
em lugar sobremaneira ermo,
pede deferimento
com o corpo cheio de feridas
o suplicante
irrecuperável militante
desta província celeste
encravada entre nebulosas
e sentimentos mais nebulosos ainda.

ESCUSAS POÉTICAS II

Alguns companheiros reclamam
que entre tantas imagens bonitas
eu diga em meus poemas que gosto de chupar bucetas
e não vejo como isso atrapalhe a marcha para o socialismo
que é também o meu rumo. Mais ainda,
eu gostaria que nessa nova sociedade por qual luto
todos passassem a chupar bucetas a contento
todos redescobrissem seus corpos massacrados
todos descobrissem que o medo e a aversão ao prazer
a que foram submetidos foi e será sempre
apenas a estratégia dos tiranos.

Outros companheiros reclamam
quanto ao uso da 1a pessoa
em meus poemas, a falta de desfechos
corretos do ponto de vista político
e os resquícios da classe que pertenço.

A isso tudo procuro responder
que a poesia reflete uma vivência particular,
se universaliza apenas nessa medida
e que não adianta você inventar um caminho
para um povo que você não conhece nem soube achar.
Eu bem que gostaria de ter essa solução, é minha senda,
eu estou sinceramente do lado dos oprimidos
só que de uma maneira abstrata
o que errei, errei por eles,
num processo não despido de angústia
e minha poesia teria que se ressentir disso.

Quanto as outras críticas,
o que posso dizer é que a falta de lógica de meus sentimentos
não acompanha a lógica dos manuais de dialética
e que minhas intenções e objetivos
nem sempre correspondem à minha vida real.

O que muitos não entendem
é que eu quero muito falar do meu povo
da sabedoria dele,
das coisas simples
que lhe são mais imediatas
mas que esse canto hoje soaria falso
e que só posso falar disso
quando não precisar inventar nada,
quando minha práxis for essa
o caminho escolhido o certo,
quando não precisar de metáforas.

O dia da redenção tanto pode ser uma aurora quanto um poente,
isso pouco importa
desde que se cante e anuncie
de todas as formas possíveis.

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~ por jeffvasques em 23/04/2011.

5 Respostas to “Inventário de Cicatrizes”

  1. Opa! Muito boa a matéria. Devo dizer o seguinte: tenho 53 anos e fui um dos que compraram o Inventário de Cicatrizes. Cheguei na época a enviar correspondência ao Alex, mas nunca obtive resposta. é um retrato de uma época que precisa sim ser exibido mas que ninguém esqueça.

  2. Poemas impressionantes…

  3. Inventário de cicatrizes foi editado com apoio da campanha da anistia. Representou uma real ruptura poética e tornou muito do que até então se escreveu uma simulação da verdade. A verdade estava ali.

  4. Eu hoje trabalho no DOPS e tenho acesso a está cela da foto…hoje esta tudo horrível, muito danificado com tempo…porém quando entramos naquele lugar sentimos lá no fundo a dor daquelas pessoas que sofreram para nos dar a liberdade que temos hoje.

  5. Recentemente estive no Memorial da Resistência e visitei algumas celas, como essa da foto. Um dos monitores revelou que as inscrições nas paredes não são da época da ditadura, e sim, feitas por ex presos políticos que foram convidados a escreverem nas paredes e mostrarem como a cela era antes do governo “raspar” os vestígios da época. Existem fotos mostrando os torturados escrevendo essas mensagens. A cela, por tanto, foi caracterizada para mostrar como eram na época do antigo Dops

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