Poesia Trunca


Estou aqui com um sorriso bobo no rosto, abraçado a dois livros fantásticos que chegaram hoje, encomendas que fiz pela estante virtual. Um deles é o “Camarim de Prisioneiro”, 2o e último livro do fantástico poeta-guerrilheiro brasileiro Alex Polari. O livro é da 1a edição de 1980 e veio com dedicatória irreverente, marca do autor: “Pra Daniel e pra Cida com um abraço sem imaginação para dedicatórias” =)

E o segundo livro, motivo deste post, é o “Poesia Trunca” uma coletânea de poetas revolucionários da América Latina organizada por Mario Benedetti. Há algum tempo estava atrás desse livro, porque quero ainda este ano publicar uma antologia semelhante a partir de traduções de poetas-lutadores que venho fazendo há algum tempo… portanto, ter acesso a seleção do Benedetti seria muito importante! E finalmente encontrei o livro disponível na Estante Virtual, um único exemplar! Comprei no ato! E pra minha alegria desmedida, o livro veio com dedicatória do próprio punho do Benedetti para o Ignácio de Loyola Brandão!!!! =)

A coletânea é de 77 e foi impresso pela Casa das Américas, importante organização cultural cubana que vem até hoje promovendo a unidade da cultura latinoamericana. Ou seja, o livro veio de cuba, passou pela mão de Benedetti que o deu para Ignácio de Loyola que por algum motivo se desfez dele e agora está em boas mãos! =)

Eis a lista de poetas revolucionários ou revolucionários poetas presentes na coletânea: Che Guevara, Juan Oscar Alvarado, Otto René Castillo, Edwin Castro, Roque Dalton, Mónica Ertl, Argimiro Gabaldón, Raúl Gómez García, Agustín Gómez, Ibero Gutiérrez, Javier Heraud, Victor Jara, Rony Lescouflair, Rigoberto López Pérez, Carlos Marighella, Ricardo Morales, Roberto Obregón,. Frank País, Néstor Paz Zamora, Leonel Rugama, Aldo Sá Brito, Luiz Saíz, Sergio Saíz, Jorge Salerno, Edgardo Tello, Francisco Urondo, Rita Valdivia, Jacques Viau.

Eu não conheço diversos desses poetas, o que me dá um ânimo fantástico de mergulhar na leitura! Certamente, se Benedetti tivesse conhecido à época a poesia de Alex Polari (das melhores que já li de todos os poetas-lutadores que venho conhecendo) teria certamente o incluído nessa coletânea.

Segue abaixo a tradução de alguns trechos da interessante apresentação do livro feita pelo próprio Benedetti. Também descobri que Benedetti gravou um DVD em que lê diversas poesias desse livro. Para quem quiser baixá-lo, basta clicar aqui.

PRÓLOGO – POESIA TRUNCA – MARIO BENEDETTI

Esta é uma antologia muito particular, já que inclui vinte e oito poetas latinoamericanos que deram suas vidas pela causa revolucionaria. A maioria deles morreu em plena juventude (alguns saíam apenas da adolescência), e aqueles poucos que já eram homens maduros, estiveram tão consubstanciados com o espírito libertário e com os afãs de justiça da juventude, que a decisão de incluí-los neste volume não só não contradiz, senão afirma a intenção de homenagem ao XI Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes que ocorrerá em Havana em 1978.

Alguns destes poetas revolucionários morreram em combate ou cumprindo uma missão insurrecional; outros, na prisão ou na tortura; houve aqueles que desapareceram em alguma emboscada e nunca mais se soube deles; outros, cujos cadáveres apareceram crivados ou mutilados por esqudrões da morte ou comandos paramilitares; alguns foram assassinados quando estavam desarmados ou ainda quando dormiam. Todos eram militantes revolucionários e, portanto, haviam assumido seu compromisso, aceitando o risco de morrer pela causa e pela pátria que defendiam. Quiçá uns foram revolucionários que, além de tudo, escreviam versos, enquanto outros eram poetas que, além de tudo, lutavam pela revolução. Aqui, no entanto, estão todos juntos, porque quando se entrega a vida, as outras matizes e prioridades se diluem nesse grande holocausto.

O volume inclui poetas da Argentina, Bolívia, Brasil, Cuba, Chile, El Salvador, Guatemala, Haiti, Nicarágua, Perú, República Dominicana, Uruguai e Venezuela. (…)

Cada vez fica mais claro que se o escritor abandona sua atitude contemplativa para jogar-se por seu povo, ou seja, se sente-se efetivamente parte do mesmo, também correrá os riscos que o povo corre em todas suas lutas. Os países latinoamericanos em que foram tomadas as mais duras medidas contra a cultura, são precisamente aqueles onde essa mesma cultura, por seu desenvolvimento progressivo, por seu labor persuasivo, por sua dimensão massiva, foi adquirindo uma função de esclarecimento ideológico e de mobilização política contra a estrutura capitalista.

Mariano Rodríguez, José M. Rodríguez (Pirole), Haydée Santamaría (fundadora da Casa das Américas), Mario Benedetti. [foto de Pedro Meyer ©]

Enquanto a cultura é um luxo, um elemento decorativa – ainda que às vezes rebelde – da burguesia, é tolerada por diversos tipos de repressão, tantos os de tipo nacional como os de assessoria estrangeira. Inclusive cai bem que os salões burgueses acolham escritores e artistas conhecidos, seja para exibí-los como personagens insólitos, e outras vezes como simples púcaros ou floreadores. Mas quando a cultura começa a chegar paulatinamente a cada vez mais setores do povo, a sensibilizar a opinião pública, a desmascarar hipocrisias, a assinalar responsáveis, a mobilizar rebeldias, ou seja, quando a cultura adquire uma vigência massiva e esclarecedora, então as forças regressivas arremetem contra ela com a mesma ferocidade que contra qualquer outro setor que se alce contra a oligarquia e contra o poder colonial.

O imperialismo sabe melhor que ninguém (as vezes melhor que o próprio artista) que se bem a arte por si só não derruba tiranias nem muda as estruturas, tem sido, não obstante, através da história um elemento nada desprezível em sua capacidade de converter em imagens, em cor, em pensamento certeiro, certos princípios regentes dos povos. Quando as mais obscuras forças da reação chegam a esse convencimento em determinado momento de uma transformação possível, então não vacilam em pagar um evidente preço político en sua arremetida contra os criadores e as formas de arte.

(…)

Ainda que limitado a um só gênero (a poesia), este volume é também uma mostra dessa busca (busca de nossa própria expressão), e um testemunho acerca do fervor com que esses poetas a levaram a cabo. No entanto, convém esclarecer que a política não é o único tema que estes poetas revolucionários alegeram. Algo que certa vez expressei com respeito a poesia de Ibero Gutierrez (totalmente inédita no momento em que é massacrado pela Esquadrão da Morte, em Montevideu), poderia ser estendido aos demais poetas: “Só uma parte (e não a maior) de seus poemas, são políticos. O resto são poemas de amor, alguns deles estupendos, ou observações líricas ante certas perplexidades próprias ou alheias, ou metáforicos diálogos com seu complicado ambiente […] Essa bondade, essa preocupação pelo próximo, essa esperança incólume, que estão presentes nos poemas, são uma comovedora mostra da riqueza interior de um revolucionário. Nós mesmos às vezes perdemos de vista esse nível humano, que não por humano deixa de ser político senão que é mais político que nunca.”

(…)

Por todo o exposto, esta não é uma antologia tradicional. A chamamos de Poesia Truncada (“Poesia Trunca”, pode-se também traduzir por Poesia Mutilada, Interrompida…) porque todos esses poetas revolucionários e revolucionários poetas estavam em plena produção, uns gerando poesia, outros gerando revolução, e outros mais, ambas as coisas de uma vez. É truncada, ainda, porque todos eles eram suficientemente jovens, ou juvenilmente maduros, como para que possamos considerá-los poetas em pleno desenvolvimento. A morte interrompe, parte essa evolução, mas não a rompe. A vida do poeta pode ser despedaçada, mas a obra, truncada mas intacta, fica, e ao final se converte em sua vida. E até pode seguir crescendo, sempre e quando novos jovens se acerquem dessa poesia interrompida, a envolvam com sua própria juventude, a continuem com sua própria vida em revolução. Oxalá que esta antologia facilite essa continuidade.

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~ por jeffvasques em 11/05/2011.

3 Respostas to “Poesia Trunca”

  1. Nada como passar por aqui logo pela manhã e me alimentar da coragem destes poetas revolucionários para enfrentar a vida truncada, mas contínua!

    • logo logo, se o fim de mestrado permitir, vem as traduções dessa antologia por aqui… ;) bejin, jeff

  2. Ora, Jeff, caso você encontre outro volume deste me avise. Estou procurando faz tempo também.
    forte abraço, camarada.
    ps: seu blog está fantástico.

    Thiago,

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