Camarim de Prisioneiro



Algumas poesias do segundo e último livro do poeta-guerrilheiro Alex Polari. O livro, escrito no período de transição do presídio para a liberdade condicional, é uma retomada de toda sua história, desde a infância, passando pelo envolvimento com a militância, com as atividades clandestinas durante a ditadura, os tempos de presídio e a liberdade. Obra fundamental da literatura brasileira moderna… vi na internet que talvez ele dê depoimento sobre seu tempo de calabouço e tortura para a novela “Amor e Revolução”…

A CÉLULA DO SETOR SECUNDARISTA

À noite sonhávamos
e durante o dia
comíamos os sonhos
da padaria
em frente.

PROFISSÃO DE FEL

Enquanto vocês se vendiam
barato
com ares de grande dignidade
fiquei por aí
zanzando feito uma besta
fazendo a revolução dos imberbes
praticando a pureza dos tolos.

Minhas concepções mudaram
mas tenho muito orgulho
de não ter sido um burocrata.

Dizem que os desvios de direita
são mais fáceis de consertar.
Mas sempre gostei de errar pela esquerda
mesmo correndo o risco de não ficar vivo
prá fazer auto-crítica.

DECLARAÇÃO DE PRINCÍPIOS

Dancem os que tenham motivos
divirtam-se os imbecis convictos
eu por mim só canto
o que me desespera
o resto, adio.

COLÔNIA PENAL BRASILIENSIS

Desligaram as máquinas
o que restou, jogaram no fosso
dos ossos fizeram pentes
dos corpos piruetas
dos cabelos perucas
dos pentelhos palitos
da pele roupas
e da voz agoniada e rouca
eles foram costurando cada grito e cada boca
um por um deles foram juntando
eco por eco de desespero
caco por caco de amargura
e assim eles inventaram esse silêncio.

REFLEXÃO SOBRE NOSSO FUTURO E DOS TEMPOS

Já amei várias mulheres
e com elas corri da polícia
me entoquei em sobrelojas decadentes
mictórios de bares, velhos sobrados
onde bradei meus slogans
debaixo de marquises cinzentas
próximo a notórios líderes procurados
durante cargas de cavalaria
e chuva de papel picado.
Porém quando começamos a namorar
eu estava numa masmorra
e ainda não havia manifestação de massa.
Antes de qualquer ativismo
e vínculo ideológico
nos prendia o velho tesão
de homem e mulher.

Hoje, porém, nessa passeata
eu percebi como é bonito e inquietante
pensar a mãe que você é
do meu próprio filho
lá, toda agitada, nervosa
no meio daquele barato todo
enquanto eu fico aqui
preocupado feito o diabo
com a sua pneumonia.
Algo me diz:
o pulsar das novas eras
vai ter esse sacolejo
ritmo esquisito
e sopinha do filhote
deixado em casa
e a palavra de ordem
gritada na desordem
das ruas
e o sorriso dele
e a pauleira do comício
a tarja preta pelos mortos
e a pulseira colorida pela vida.

E quem começou pelo fim
terminará achando seu início.

CONFISSÕES DE ÚLTIMA HORA

Hoje, nesta visita íntima
senti-me sem qualquer intimidade
com esse mês de setembro
que prenuncia minha saída.
Já mais próximo do meu livramento condicional
me vejo incondicionalmente vítima de tudo,
vitrine de minha própria loucura.

E vivo a merda de um vazio despropositdo
uma total indiferença ante a liberdade
e até uma certa náusea por ela.

Tenho medo de sair, preguiça de viver
e horror de ser tomado por tal letargia
no dia que puser os pés fora dessa prisão.

Tudo perdeu o sentido
e eu escolhi me decretar atingido
por fatos que normalmente tiro de letra.
Fiz toda força que pude prá me fragilizar
antes que fosse tarde
e mais uma vez eu subisse ao pódium
para uma vitória à custa de minha emoção.
Eu que durante tanto tempo
resisti na esperança desse momento
na sensação de superioridade que ele me daria
caso eu conseguisse retê-lo
tenho apenas algumas semanas
para recuperar minha fantasia
sem a qual sairei daqui derrotado
e todos esses anos não terão tido qualquer sentido.
Confesso,
é uma sensação tão doida, doída
contraditória com tudo
que por um momento quase não publico esse livro.

POEMA DE SAÍDA BREVE

Viver, Porra!!!

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~ por jeffvasques em 14/05/2011.

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