Arte engajada na América Latina


Estou feliz e ao mesmo tempo apreensivo por ter sido convidado para compor a mesa “Arte engajada durante as ditaduras latino-americanas” no envento “Arte engajada na América Latina” que está ocorrendo na USP. Estarão na mesa também Alípio Freire (poeta-militante preso e torturado durante a ditadura) e a professora Gabriela Peregrino da FFLCH.

Estou muito feliz de estar na mesa com o Alípio, figura que admiro e pra quem fiz questão de enviar meu livrinho de poesia assim que ficou pronto. É claro que minha fala vai focar centralmente nos poetas lutadores da américa e em suas poesias… feliz por poder dar vazão a essa pesquisa que venho realizando há algum tempo e apreensivo pela responsabilidade de falar sobre tanta gente que morreu lutando contra o capitalismo, lutando com armas e palavras.

Eventos desse tipo são cada vez mais raros! Feliz de ver gente como a Letícia Simões assumindo a bronca de organizar um evento como esse… parabéns!

Se estiverem por sampa, essa mesa será na quarta agora (18/maio) às 17h nas salas da FEA-1 (Economia-USP). Segue o cartaz com toda a programação e depois um belo poema do Alípio.

1 de março de 1992 – Alípio Freire

O velho anota
no metrô
seu poema
velho
da vitória
do que houve
de mais velho
quando era
demais jovem.

Ninguém
além do velho
se interessa
por seu poema
antiquado

Sem rima
e sem metro.

O velho do metrô
usa óculos e bigodes
e nos pés
um par de tênis
surrados

Sem laço
e sem cadarço.

Com a memória em 64
os pés em 22
a cabeça em 68
e o coração sem tempo
o velho anota
seu poema

Datado.

Mulheres de todas as idades
entram e saem do metrô
do mesmo modo como o fizeram
na vida do velho.

Pernas verdes, amarelas, azuis e brancas.
Pernas vermelhas
– Para que tanta perna, meu deus?! –,
considera o velho.

Mas as pernas passam
as mulheres passam
os amores passam
a vida passa.
Tudo na vida passa.
E envelhece.

Rejuvenescido pela poesia que passa
o velho sorri um sorriso ateu
ciente de que o metrô
não é O Trem d’A História
e de que deus não existe.

Assim, desembarca no Paraíso.

O velho sorri solitário
e despojado de expectativas

No metrô
Na gare
Na vida.

O velho deixa a estação
mergulha na chuva fina da noite
declina qualquer autoenternecimento ou comiseração pública
faz xixi na árvore da esquina
e prossegue em direção ao vazio
assobiando uma velha melodia

Por que não?

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~ por jeffvasques em 16/05/2011.

4 Respostas to “Arte engajada na América Latina”

  1. Camarada parabéns e boa sorte.

    Vou ver se divulgo!

    Sturt Silva

  2. Não tinha visto este post ainda.
    Este é um dos poemas de que muito gosto em “Estação Paraíso”.
    Boa escolha.
    Belo poema!

    Abraço,

    J.

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