Che Guevara poeta?


Depois de parado por um mês (fim do mestrado + férias), retomo com puta ânimo as atividades do Passarin. E voltamos em grande estilo, com Che Guevara.

Poucos sabem que Che Guevara escreveu algumas poesias. Claramente, ele era um lutador que escrevia e não um poeta lutador, mas, apesar disso, seus poemas não são ruins. Na verdade, me surpeenderam sua qualidade o que evidencia um escritor com traquejo apreendido da leitura regular que fazia de grandes poetas. Che lia poesia desde sua adolescência. Era notória sua fama dentre os guerrilheiros de grande leitor. Todos temiam quando Che ia para a linha de frente, porque alguém teria que carregar sua mochila que era muito pesada de tantos livros! Quando foi capturado na Bolívia, acharam em sua mochila, além do diário da guerrilha, um caderno verde em que Che vinha, há 10 anos, transcrevendo suas poesias prediletas. Era uma antologia pessoal de poesias que contava com o poeta cubano Nicolás Guillén, Neruda, César Vallejo e Felipe León. Essa energia dispendida com a poesia em meio à guerrilha é mais um elemento pra quebrar qualquer caricatura de Che, seja as construídas pela direita ou por certa esquerda messiânica. Esse caderno verde de poesias de Guevara foi publicado recentemente em espanhol (e eu espero em breve comprar!).

Abaixo seguem algumas poesias que tra(b)duzi. Ainda encontrei mais 2 ou 3 poesias de Che em antologias que tenho, mas por serem muito grandes deixei para traduzir em outro momento.

CRISTO TE AMO


OBSERVAÇÃO IMPORTANTE: Este poema, creditado a Guevara, segundo informações de Francisco Orban, caro leitor do blog, não é de sua autoria, apenas encontrava-se entre os papéis de Guevara… provavelmente um de seus poema preferidos… assim que descobrir o autor do poema, incluo aqui!

Cristo te amo não porque
desceste de uma estrela
senão porque ensinaste
que o homem é um deus
e aquele que está a tua esquerda no Gólgota
o mau ladrão
também é um deus.

O MAR ME CHAMA COM SUA AMISTOSA MÃO

O mar me chama com sua amistosa mão.
Meu prado – um continente –
se desenrosca suave e indelével
como uma badalada no crepúsculo.

DE PÉ A LEMBRANÇA CAÍDA NO CAMINHO

De pé a lembrança caída no caminho
cansada de me seguir sem história
esquecida numa árvore do caminho.

Irei tão longe que a lembrança morra
destroçada nas pedras do caminho,
seguirei sendo o mesmo peregrino
de penhascos dentro e sorriso a fora.

Essa vista circular e forte
em um mágico passe de muleta
esquivou em minha ânsia toda meta
convertendo-me em vetor da tangente.

E não quis olhar para não te ver,
rosado toureiro de meu destino,
me convidar com gesto displicente.

AUTO-RETRATO OBSCURO

De uma jovem nação de raízes de erva
(raízes que negam a raiva da América)
venho até vocês, irmãos nortenhos

Carregados de gritos de desalento e de fé
venho até vocês, irmãos nortenhos,
venho de onde viemos os “homo sapiens”
devorei quilometros em ritos transumantes
com minha matéria asmática que carrego como uma cruz
e na entranha estranha de metáfora desconexa.

A rota foi ampla e muito grande a carga
persiste em mim o aroma de passos vagabundos
e ainda que o naufrágio de meu ser subterraneo
– apesar de que se anunciam margens salvadoras –
nado displicente contra a ressaca,
conservando intacta a condição de náufrago.

Estou só frente à noite inexorável
e certamente abandono o demasiado doce dos bilhetes.
Europa me chama com voz de vinho envelhecido
alento de carne loira, objetos de museu.

E nos clarinetes alegres de paises novos
eu recebo de frente o impacto difuso
da canção, de Marx e Engels,
que Lenin executa e entoam os povos.

E AQUI

“Sou mestiço”, grita um pintor de paleta acesa,
“sou mestiço”, me gritam os animais perseguidos,
“sou mestiço”, clamam os poetas peregrinos,
“sou mestiço”, resume o homem que me encontra
na dor diária de cada esquina,
e até o enigma pétreo da raça morta
acariciando uma virgem de madeira dourada:
“é mestiço este grotesco filho de minhas entranhas”.

Eu também sou mestiço em outro aspecto:
na luta em que se unem e repelem
as duas forças que disputam meu intelecto,
as forças que me chamam sentindo das minhas vísceras
o sabor estranho de fruto encaixotado
antes de atingir sua madurez de árvore.

Me volto no limite da América hispânica
a saborear um passado que engloba o continente.
A recordação desliza com suavidade indelével
como o distante tinir de um sino.

VELHA MARIA, VAIS MORRER

Velha Maria, vais morrer:
Quero falar contigo seriamente.

Tua vida foi um rosário completo de agonias,
não houve homem amado ne saúde nem dinheiro,
apenas a fome para ser compartilhada.
Mas quero faler-te da tua esperança,
das três diversas esperanças
que tua filha fabricou sem saber como.

Toma esta mão de homem que parece de menino
nas tuas mãos, polidas pelo sabão amarelo.
Abriga teus calos duros e teus nós puros dos dedos
na suave vergonha de minhas mãos de médico.

Escuta,avó proletária:
crê no homem que chega,
crê no futuro que nunca verás.

Não rezes ao deus inclemente
que toda uma vida desmentiu tua esperança;
não peças clemência à morte
para ver crescer tuas pardas carícias;
os céus são surdos e o escuro manda em ti.
Mas terás uma vermelha vingança sobre tudo,
juro pela exata dimensão de meus ideais:
todos os teus netos veverão a aurora.
Morre em paz, velha lutadora.

Vais morrer, velha Maria:
trinta projetos de mortalha
dirão adeus com o olhar
num destes dias em que te vais.

Vais morrer, velha Maria:
ficarão mudas as paredes da sala
quando a morte conjugar-te com a asma
e copularem seu amor na tua garganta.

Essas três carícias construidas de bronze
(a única luz que alivia a tua noite),
esses três netos vestidos de fome
chorarão os nós destes dedos velhos
onde sempre encontravam um sorriso.
E isso será tudo, velha Maria.

Tua vida foi um rosário de magras agonias,
não houve homem amado, saúde, alegria
apenas a fome para ser compartilhada.
Tua vida foi triste, velha Maria.

Quando o anúncio do descanso eterno
suaviza a dor de tuas pupilas
e quando a tua mão de perpétua borralheira
absorve a última e ingênua carícia,
pensas neles… e choras,
pobre velha Maria!

Não, não o faças!
Não rezes ao deus indolente
que toda uma vida desmentiu a tua esperança,
nem peças clemência à morte,
que tua vida foi horrivelmednte vestida de fome
e acaba vestida de asma.

Mas quero anunciar-te,
na voz baixa e viril da esperanças,
a mais vermelha e viril das vinganças.
Quero jurá-lo pela exata
dimensão de meus ideais.

Toma esta mão de homem que parece de menino
nas tuas mãos, polidas pelo sabão amarelo.
Abriga teus calos duros e teus nós puros dos dedos
na suave vergonha de minhas mãos de médico.

Descansa em paz, velha Maria,
descansa em paz, velha lutadora:
todos os teus netos viverão a aurora.
EU JURO!

EU SEI! EU SEI!

Eu sei! Eu sei!
Se sair daqui, o rio me engolirá…
É o meu destino: hoje devo morrer!
Mas não, a força de vontade pode superar tudo
Há obstáculos, eu reconheço
Não quero sair.
Se tenho que morrer, será nesta caverna.

As balas, o que podem as balas fazer comigo
se meu destino é morrer afogado? Mas vou
vencer o destino. O destino pode ser
conseguido pela força de vontade.

Morrer, sim, mas crivado de
balas, destroçado pelas baionetas, se não, não. Afogado não…
Uma recordação mais duradoura do que meu nome
É lutar, morrer lutando.

(Ernesto Guevara – 17 de janeiro de 1947)

CONTRA O VENTO E AS MARÉS

Este poema (contra o vento e as marés) levará minha assinatura.
Deixo-lhes seis sílabas sonoras,
um olhar que sempre traz (como um passarinho ferido) ternura,

Um anseio de profundas águas mornas,
um gabinete escuro em que a única luz são esses versos meus,
um dedal muito usado para suas noites de enfado,
um retrato de nossos filhos.

A mais linda bala desta pistola que sempre me acompanha,
a memória indelével (sempre latente e profunda) das crianças
que, um dia, você e eu concebemos,
e o pedaço de vida que resta em mim.

Isso eu dou (convicto e feliz) à revolução
Nada que nos pode unir terá força maior.

CANTO A FIDEL

Vamos, ardoso profeta da alvorada,
por caminhos longínquos e desconhecidos,
liberar o grande caimão verde* que você tanto ama…
Quando soar o primeiro tiro
e na virginal surpresa toda selva despertar,
lá, ao seu lado, seremos combatentes
você nos terá.
Quando sua voz proclamar para os quatro ventos
reforma agrária, justiça, pão e liberdade,
lá, ao seu lado, com sotaque idêntico,
você nos terá.
E quando o final da batalha
para a operação de limpeza contra o tirano chegar,
lá, ao seu lado, prontos para a última batalha,
você nos terá…
E se o nosso caminho for bloqueado pelo ferro,
pedimos uma mortalha de lágrimas cubanas
para cobrir nossos ossos guerrilheiros
no trânsito para a história da América.
Nada mais.

* Caimão verde era o nome alegórico atribuído à ilha de Cuba.

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~ por jeffvasques em 04/08/2011.

11 Respostas to “Che Guevara poeta?”

  1. Caro Jeff!

    Muito ibrigado por nos presentear com tão boa seleção.

    Um forte abraço,

    J.

  2. gostei bastante deste blog. virei outras vezes aqui.

  3. Um guerrilheiro poeta? Confirmando sua mais célebre frase… “Ter que endurecer, porém, sem perder a ternura jamais…”
    Valeu pela postagem… um tesouro escondido!

  4. ADORO AS POESIAS DELE !

  5. Buenísimo arquivo!

  6. Caro editor. Tenho o maior respeito pela figura icônica de Guevara, mas o poema Cristo te amo, não é de sua autoria. O poema é de um poeta espanhol que Guevara apreciava, e que foi encontrado entre os seus papéis, após sua prisão e posterior execução. O poema é maior do que o publicado, e eu o conheço, pois também sou poeta e admirador de Guevara. Estou enviando o texto na íntegra, e caso eu esteja enganado gostaria que me respondesse: “Cristo, tem amo. Não porque desceste de uma estrela, mas porque me revelaste que o homem tem lágrimas, angustias, chaves para abrir as portas fechadas da luz.. Sim, tu me revelaste, que o homem é um pobre deus crucificado, como tu. E aquele que está na Gólgota, o mau ladrão, também é um deus”

    • Olá, Francisco! Muito obrigado pela informação! Vou pesquisar… é bem possível sim… de início havia estranhado esse poema dentre os de guevara, não parece ser uma temática que ele abordaria… mas acredito ter visto em algum site que me parecia de confiança… Vc saberia me informar o nome do verdadeiro autor dessa poesia? Grande abraço, Franciso e muito prazer em conhecer um profundo admirador de poesia e de guevara! ;) Jeff

  7. Conheci o “Cristo te amo”, assim:
    “Deus, ti amo.
    Não porque desceste de uma estrela,
    Mas porque me revelaste que o homem tem lágrimas, angustias e chaves para abrir as portas da luz,
    Sim, Tu me ensinastes que o homem é deus.
    Um pobre deus crucificado como Tu.
    E aquele que está a Tua esquerda no Gólgota, o mal ladrão,
    também é um deus.”

    Depois que li, passou a ser a minha oração.

  8. TODO SER HUMANO NASCEM E CRESCE , E TEM SONHOS, MAS OS CAPITALISTAS BURGUESES , SEM CLEMENCIAS, PERSEGUE-OS MATANDO ESSES SERES BRILHANTES, QUE TEM TALENTO E ARTE DE PRODUZIR ,
    PARA MUITOS PENSADORES FILÓSOFOS, SÃO OS MAIS ÍNTEGROS, E AGEM COM A VERDADE RAÇÃO E O CORAÇÃO , SONHADO EM TRANSFORMAR O MUNDO. PARA QUE UM DIA O Sol NASCEM PARA TODOS SEM DESIGUALDADE SOCIAL E ECONÔMICA – assim todos possa ter os mesmos valores .

  9. A vida de Che Guevara foi uma linda poesia que continua a brilhar em todos os rincões do mundo. de Cajazeiras à Paris che é exaltado!

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