A Rosa Blindada I


A “Rosa Blindada” é o nome de um importante livro de poesias do poeta argentino Raúl González Tuñón. Neruda chegou a dizer que Tuñon foi o primeiro a “blindar a rosa”, ou seja, o primeiro de toda uma geração a defender a poesia como uma arma de luta. Estou traduzindo os prólogos que o próprio Raúl fez a seu livro, onde faz interessante debate sobre a poesia revolucionária, tema que me interessa justamente pela antologia de poesias revolucionárias que estou organizando e traduzindo. Em breve continuo com as outras partes do prólogo

A nós a poesia

(prólogos do livro “A Rosa Blindada” de Raúl Tuñon)

“Sem compreender claramente que só com a assimilação completa da cultura criada por todo o desenvolvimento da humanidade se pode organizar uma cultura proletária, não conseguiremos esse objetivo”…”Devemos por em primeiro lugar a instrução e a educação pública mais ampla. Isto criará um terreno favorável à cultura, com a condição, naturalmente, de solucionar o problema do pão. Sobre este terreno deve nascer realmente uma nova arte comunista que criará a forma que corresponde a seu conteúdo.” Lenin
Vamos desde uma arte sem travas, desde a autêntica arte pura, passando pela arte revolucionária primeiro e pela arte proletária depois.

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O poeta se dirige à massa. Se a massa não entende totalmente é porque, desde já, deve ser elevada ao poeta. Não se trata de nivelar a todos, pela revolução, à fome e à incultura senão à comodidade e à cultura.

Agora bem, existe uma massa a que o poeta pode dirigir-se e cumprir sua missão principal. Está composta por operários que puderam alcançar certos elementos de cultura; por operários nos quais a sensibilidade, o instinto poético supre a falta desses elementos; por intelectuais, artistas, jornalistas, pintores, maestros, estudantes que desejam a transformação da sociedade, que abundam e que são também massa.

O poeta não deve, pois, renunciar a ser poeta, mas isto não quer dizer que renuncie a ser homem. Em uma época como a que vivemos, intensa, dramática, de negação e criação, o poeta deve estar ao serviço dos outros. Se é um poeta autêntico fará isso sem o definhamento dos valores poéticos esenciais.
Devemos temer o caos nós, poetas, nós, pensamento militante? E o caos atual? De outra forma será difícil que a nós nos aturda o primeiro tapa brutal da revolução. Sergio Esenin e Vladimir Maiakowski sucumbiram, se eliminaram porque, finalmente, o tapa os aturdiui. Apesar de haver aderido a revolução a abandonaram para morrer voluntariamente. Mas eles estavam no entanto, e apesar deles, com um pé na burguesia. Haviam conhecido seu veneno. Deve-se recordar que outros poetas que sempre haviam sido revolucionários, sucumbiram também porque acreditaram que a revolução ia consagrá-llos imediatamente, dar-lhes em seguida todos os elementos. Uns e outros não compreenderam que o que estava acontecendo na Rússia era maior que eles e maior que a poesia mesma ou a poesia mesma!

Nós teremos a sorte de recebir a revolução cantando, depois de haver cantado e desejado, sem descuidar da técnica e sem deixar de haver intervindo mais ou menos concretamente na luta.

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Ainda que de extração social operária não tenho a pretensão de ser um poeta proletário. Por outra parte não há poetas proletários nos países burgueses. Talvez não os haja todavia na Rússia porque como já disse Lenin a arte proletária deverá nascer da cultura proletária, e esta por sua vez, da revolução em grau avançado. Mas há uma arte revolucionária que corresponde ao período pré-revolucionário. E se uma pretensão tenho é a de ser um poeta revolucionário, a de haver abandonado essa espécie de virtuosismo burguês decadente, não para cair na vulgar crônica grosseira que pretende ser clara e direta e resulta tola, senão para vincular minha sensibilidade e meu conhecimento da técnica do ofício aos feitos sociais que sacodem o mundo. Sem que o político menospreze ao artístico ou viceversa, confundindo, de forma melhorada, ambas realidades em uma.

Não por isso creio haver resolvido todos os problemas que a questão arte-política me há apresentado, mas sim os fundamentais. Nesse sentido o discurso de Gide no Congreso de Escritores e os pensamentos de Lenin a respeito me serviram muito assim como a leitura recente do livro de Benjamín Goriely Os poetas na revolução Russa, que recomendo aos camaradas que não o conheçam. Adiro ao discurso “Defesa da Cultura” porque Gide comprendeu – e era lógico – os problemas que a pre-revolução coloca ao artista e os problemas que a revolução coloca ao artista. Porque declara que os intelectuais, se são auténticos, por compreensão de sua função histórica e se querem conservar a herança cultural e defender a dignidade do pensamento, devem estar com a revolução. Porque exige uma arte de oposição. Porque assinala ao mesmo tempo o perigo que significa encarar o problema arte-política de uma maneira simplista. Porque afirma seu individualismo e diz que, precisamente por ser individualista se sente profundamente comunista porque somente a sociedade comunista pode oferecer ao individuo todos os elementos para seu desenvolvimento sem travas das diferenças de classe, da injustiça social. Porque afirma sua condição de francês e diz que precisamente por ser nacional se sente profundamente internacional. Porque declara que se há artistas grandes que não podem comunicar-se com o povo é essa uma das causas pelas quais é imperiosa a necessidade de elevar ao povo a arte e a cultura e isso só poderá conseguir-se com a transformação da sociedade.

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Creio que a poesía revolucionaria é autêntica:
1º Quando poesia e revolução se confundem, são consubstanciais, como no caso de Brecha, Gold, Alberti, Aragón, etc., e, no passado, como no caso de Heine (Os tecedores de Silesia). Ou seja, não menosprezando a poesia em si, fazendo-a perdurável por seu conteúdo estético pralém de seu conteúdo humano. Porque ainda quando as condições sociais de vida dos tecedores de Silésia tenham mudado, o alto dramatismo poético subsiste, a poesia subsiste.

2º Quando o conteúdo social corresponde à nova técnica. Não se trata de negar o proceso poético que, como o pictórico, teve suas etapas criadoras maravilhosas – nas quais, detalhe importante, nunca a arte esteve desvinculada do feito social- mas resulta absurdo compor hoje poemas presos a esta ou aquela regra formal.

3º Mas não há que confundir técnica nova com ocultismo poético, travessuras gramaticais, etc., ou poemas sem ritmo (que podem ser feitos quando o tema o exija como em meu poema “O pequeno cemitério fusilado”, ainda que o ritmo exista aqui como a água dentro da rocha). Porque, geralmente, essa atitude poética que foi uma reação saudável contra o academismo, esta concorrendo com esse ritmo de marcha, de hino – para cantar– que deve ter quase sempre o poema revolucionário. Chamo “técnica nova” ao conhecimiento e à superação de todas as técnicas, à desenvoltura que nos dá esse conhecimento, à liberdade de tons, ritmos, imagens, palavras e ao que sempre tiveram os poetas de cada época criadora, ao que segue a linha poética que nasceu com a primeira palavra pronunciada pelo homem na terra: à personalidade de um poeta.

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~ por jeffvasques em 02/09/2011.

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