Omissão


É claro que o poeta político, se é que existe isso, não é aquele que só faz poesia de conteúdo político… A vida lhe interessa como um todo, mas é claro, questões urgentes e necessárias o fazem olhar de uma certa forma o mundo, do ponto de vista de quem luta por transformá-lo. Escrever sobre outras coisas (não-políticas) não é sinal de abandono da luta… porém, em alguns casos, claro, pode significar isso sim… Estou relendo a obra toda do Ferreira Gullar e é impressionante observar como, com o passar do tempo, ele abandona as ruas, a cidade, o conflito da vida capitalista, para se fechar cada vez mais em seu umbigo… Veja, fazer poesia sobre seu umbigo é sempre necessário… mas quando ela faz parte de um movimento que se conecta à vida real e à luta lá de fora, ela ganha sempre outros contornos… Em Gullar, com a perda do contato com esse espaço social de conflitos e contradições, o voltar-se para seu umbigo torna-se algo desesperador, bossal e caquético (para quem acompanha de perto sua trajetória)… Eis um poema em que, talvez, se deu seu último lampejo de lucidez…

OMISSÃO(Ferreira Gullar)

Omissão

I

Não é estranho
que um poeta político
dê as costas a tudo e se fixe
em três ou quatro frutas que apodrecem
num prato
em cima da geladeira
numa cozinha da Rua Duvivier?

E isso quando vinte famílias
são expulsas de casa na Tijuca,
os estaleiros entram em greve em Niterói
e no Atlântico Sul começa
a guerra das Malvinas.

Não é estranho?
por que então
mergulho nessa minicatástrofe
doméstica
de frutas que morrem
e que nem minhas parentas são?
por que
me abismo
no sinistro clarão dessas formas
outrora coloridas
e que nos abandonam agora inapelavelmente
deixando a nossa cidade
com suas praias e cinemas
deixando a casa
onde frequentemente toca o telefone?
para virar lama.

II

É compreensível que tua pele se ligue à pele dessas frutas que apodrecem
pois ali
há uma intensificação do espaço, das forças
que trabalham dentro da polpa
(enferrujando na casca
a cor
em nódoas negras)
e ligam
uma tarde a outra tarde e a outra ainda
onde
bananas apodreceram
subvertendo a ordem da história humana, tardes
de hoje e de ontem
que são outras cada uma em mim
e a mesma talvez
no processo noturno da morte nas frutas
e que te ligam a ti através das décadas
como um trem que rompe a noite
furiosamente dentro
e em parte alguma
– é compreensível
que dês as costas à guerra das Malvinas
à luta de classes
e te precipites nesse abismo
de mel
que o clarão do açúcar nos cega
e diverte ser espectador da morte, que é também a nossa,
e que nso atrai com sua boca de lama sua vagina
de nada
por onde escorregamos docemente no sono
e é bom morrer
no teatro
vendo morrer
pêras ardendo
na sua própria fúria
e urinando
e afundando em si mesmas
a converter-se em mijo, a pêra, a banana ou o que seja
e assistes
à hecatombe
no prato
sob uma nuvem de mosquitos
e não ouves o clamor da vida
aqui fora
na rua na fábrica na favela do Borel
não ouves
o tiro que matou Palito
e não ouves, poeta,
o alarido da multidão que pede emprego
(são dois milhões sem trabalho
há meses
sem ter como dar de comer à família
e cuja história
é assunto arredio ao poema).

É a morte que te chama?
É tua própria história
reduzida ao inventário de escombros
no avesso do dia
e não mais esperança
de uma vida melhor?
que se passa, poeta?
adiaste o futuro?

Anúncios

~ por jeffvasques em 09/10/2011.

2 Respostas to “Omissão”

  1. Digo não a omissão, não consigo ficar quieto, estou sempre procurando meu espaço, estou sempre na ativa, necessitando de causas nobres que despertem minha ira e eu possa lutar com ternura e desprendimento, não existe nenhum sistema no planeta que poderá calar minha voz. Eu sou poeta e não consigo esconder minha indignação, tenho como forma de viver uma doce cantiga em meu coração, minha estrela irradia tanta luz e um alento pra minha própria alma, não consigo ser fruto do passado, passo tudo a limpo em meu ser e procuro viver do lado de quem está sendo castrado pelo sistema.
    Eu sou a voz que não se escuta, mas mesmo assim insisto em continuar gritando, a omissão jamais ira fazer parte do meu ser.

  2. É difícil não omitir-se diante de tantas inquietações mundo afora… Infelizmente é o que mais acontece. Só que são tantas! O resultado acaba sendo a inevitável omissão, de uma forma ou de outra…
    Sem contar, é claro, com o individualismo exacerbado desses novos tempos… É nesse ponto que tudo se perde.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: