Poemas para a liberdade


Achei, por acaso, num sebo perto de casa dois volumes do “Poemas para a Liberdade” do Cadernos do Povo Brasileiro, coleção Violão de Rua, organizado pelo CPC da UNE (Centro Popular de Cultura) entre 62 e 64, coleção interrompida pelo golpe militar. A coleção “Violão de Rua” foi organizada por Moacyr Felix e congregava a “poesia social” de seu tempo. A qualidade das poesias varia muito, mas a iniciativa é fantástica e também muito interessante o prefácio teórico de Moacyr que transcrevo abaixo pelo valor histórico no resgate do pensamento sobre a poesia/arte revolucionária no Brasil. Participaram dessa coleção artistas de reconhecimento nacional como: Ferreira Gullar, Affonso Romano, Moacyr Felix, Paulo Mendes Campos, Solano Trindade, José Paulos Paes, Vinicius de Moraes. Em outro post apresentarei uma seleção de poemas desses dois livrinhos. O vol 1. desta coleção pode ser baixado em pdf aqui (dica do compa Jeferson Pão Gonzalez)

NOTA INTRODUTÓRIA – MOACYR FELIX 11/03/63

1- Violão de Rua é um gesto resultante da poesia encarada como forma de conhecimento do mundo e servindo, portanto, ao esforço para uma tomada de consciência das realidades últimas que nos definem dentro deste mesmo mundo; é a tentativa de levar a poesia para os terrenos em que ela se identifica com a ação de responder ao que substantiva o seu tempo, e integrá-lo, como tal, na comunidade de todos os tempos. Ou seja, é a busca, feita através do sentimento de verdades históricas e essenciais, de uma significação racional para as dialéticas contradições da conduta humana no tempo.

2 – Violão de Rua, obra participante mas não partidária, pretende ser mais um solavanco nas torres de marfim de uma estética puramente formal, conservadora e reacionária, onde a palavra, apreciada por critérios e reacionária, onde a palavra, esvaziada dos suportes objetivos que a determinam como o pulso onde transita o som e o sange de toda a sua realidade, é apreciada por critérios exclusivamente externos (como seu ritmo aparente, raridade, aplicação exótica), e resvala sempre para o sentido do divertissement e do ornamental. Como também se esforçará por desviar-se da ineficiente e superficial generosidade que se enreda no sectarismo, no dogmatismo dos slogans, no uso acadêmico ou prosaico de uma restritiva seleção de formas e temas, e que, por conseguinte, acaba de desnaturalizar-se nos esrros, já historicamente condenados, de uma estética que resulta apenas da aplicação mecânica de esquemas ideológicos.

3 – Violão de Rua almejará ser a utilização, em termos de estética, de temas reais, de temas humanos, baseada na certeza de que tudo aquilo que é verdadeiro serve ao povo, de que o uso apaixonado de uma verdade é o instrumento por excelência da humanização da vida. É o ato de mostrar a ação dos poetas intervindo na vida para dialogar emocionadamente com aquilo que ela possui de mais vivo e de mais dinâmico. Nas condições atuais de nossa história, um dos seus objetivos imediatos, portanto, não poderá deixar de ser o de revlar também o sentimento destas duas verdades que cada vez mais vão-se clarificando no coração do povo brasileiro: uma, a identificação da luta contra os imperialismos sobretudo o norte-americano, com a luta pela nossa emancipação econômica; outra, mais funda, a de incompatibilidade essencial entre o regime capitalista e a liberdade ou construção do homem.

4- Violão de Rua, com sua intenção de ser uma significativa série, destina-se, a longo prazo, a ajudar a extirpar as raízes daquele artesanato que não diz nada porque só foi soerguido para justamente não dizer nada, com todos os seus erros e falhas que a prática, pouco a pouco, irá apontando e corrigindo, guiar-se-a em suas páginas selecionadas, e que cada vez mais se espraiarão para o maior número de aspectos da vida do homem pelo objetivo de demonstrar a tendência a uma nova visão de mundo, apta a oferecer novos prismas para uma vivida compreensão da História, dos seres e das coisas. E isto nasce do nosso convencimento de que sem este prisma fundamental de uma “visão de mundo” (e que só será verdadeira na medida em que for brasileira) o poeta não saberia conhecer-se dentro do conhecimento dos fatos que o rodeiam e, tomando a superfície pelo fundo, ficaria adstrito à desrelacionada constatação de pequenos fatos, oscilando sempre entre o que se costuma chamar de “estados d’alma” e as pseudos “renovações formais”, ou seja, entre pequeninas e fragmentárias observações que dizem menos do que qualquer manchete de jornal, e mentem muitas vezes mais.

5- Violão de Rua, a partir do modesto e limitado alcance de suas estruturas dentro da atual revolução brasileira, não deixará de ser uma fonte, humílima embora, para o desenvolvimento daquele humanismo que deve justificar e dignificar os fundamentos de qualquer ação revolucionária, que vê no homem, no indivíduo humano, a marca final de qualquer empreendimento realizado pelo próprio homem. O centro solar de suas raízes encontram-se na afirmação, feita pelo filósofo que está mais presente na evolução do pensamento contemporâneo, de que o término da pré-história do homem coincide também com aquele momento em que se torna possível o livre e pleno desenvolvimento de cada indivíduo.

6- Violão de Rua procura ser antes de mais nada um trabalho de poetas. E os poetas, ao nosso ver, são os homens da negação, aqueles que se revoltam contra a fatalidade “traçada pelos deuses” em nome de um destino a ser criado e desempenhado pelos homens: Prometeu. Daí a sua íntima afinidade com aquele impulso ou projeto de desalienação existente na história dos homens, sempre marcada pelas revoluções que a distanciam do ensobreado chão da Necessidade para aproximá-la mais e mais do azulado reino da Liberdade. Não poderiam deixar, por isso, os verdadeiros poetas, de colocar a sua sensibilidade, nas condições atuais da História, também ao lado do proletariado, classe por excelência da negação, única classe que luta para negar-se a si própria, para deixar de existir como tal e com isto fundar o novo mundo em que não existam mais classes. Ou seja, a única classe que busca essencialmente realizar o goethiano anelo: “morre e transmuta-te”; a única classe que traz em si própria, historicamente, a morte do homem velho e o nascimento do homem novo. Violão de Rua é um livro que se coloca, portanto, ao lado do proletariado e do campesinato, das suas lutas e das suas aspirações: o poeta deve ser o primeiro a saber e o último a esquecer que na singularidade de cada homem injustiçado é toda a humanidade que sofre, que no olhar daqueles que são escravos – ali, e tão-somente ali – é que se pode ver a verdadeira realidade dos frutos daqueles que se apresentam sob a forma de mestres.

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~ por jeffvasques em 29/10/2011.

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