“Estes poetas são meus”


Poeta-lutador uruguaio Ibero Gutierrez


Traduzo este poema de Mario Benedetti em homenagem ao poeta-lutador uruguaio Ibero Gutierrez e vários outros poetas-lutadores que assumiram a árdua tarefa de ser artista-em-luta. Dedido este poema também a poeta colombiana Angye Gaona, que vem sendo perseguida pelo governo colombiano por crimes que não cometeu. Aproveito para agradecer a irmá de Ibero, Sara Gutierrez, que me brindou com material muito bonito sobre a obra de Ibero (que era artista plástico também). Como já disse Pedro Tierra no belo poema “Há um lugar na barricada”: “Se entre os companheiros ainda / há quem pergunte a razão / dos poetas, // encontra, primeiro, teu lugar na / barricada, depois, entre os combatentes,/ aponta / o rosto enérgico de tua poesia”. O caminho dos poetas-lutadores e dos artistas-em-luta, no geral, não é fácil até porque muitas vezes são mal vistos pelos próprios companheiros de luta… mas esses são essenciais tanto pra compreensão concreta e profunda do espírito de uma época, quanto pra vislumbrar o novo…

ESTES POETAS SÃO MEUS – MARIO BENEDETTI

“Estes poetas são meus”
Carlos Drummond de Andrade

Roque leonel ibero rigoberto
ricardo paco otto-rené javier
quantas vezes e em quantas reuniões e assembléias
os terão (mal) tratado de pequeno-burgueses
terão ficado sozinhos com seu antigo costume
de raciocionar / ou a sós com o rigor científico
a sós com um impulso moral / a sós em uma
solidão não querida nem buscada
a sós com seus amores ao próximo à próxima
com a preocupação de que os segregavam
sozinhos para entender tudo e a todos

quantas vezes e em quantas esperanças ou rotas
terão andado tateando a relâmpagos
deixando repousar o tempo da poesia
eles infatigáveis rebentando-se
sabendo que não eram os pequenos burgueses
que os rudes companheiros diziam

que não eram os frouxos os livrescos
olhando-se no espelho até desentranhá-lo
como narcisos nunca / olhando-se autocríticos
jamais desalentados / tratando de encontrar
o resquício a brecha o abrigo o mérito
de ser como os outros ou algo assim

quantas vezes e em quantos cochilos insones
terão considerado a pena ou o atalho
de apagar a poesia / de apagar-se
como poetas / apagar o modesto delírio
e juntar as palavras voláteis
e transformá-las por outras as concretas
e revolucionar as vinte e quatro horas
e por-se no esquema e abandonar os tropos
e andar ao mesmo passo / nadar o mesmo rio
e fabricar assim a infundada esperança
de serem iguais aos outros / serem
igualmente julgados e medidos

quantas vezes e em quantas lagoas e memórias
terão querido ser / luz vermelha / terra verde
e compartilhar a luta em pedacinhos
aprender sangue a sangue o alfabeto
qual se não o soubessem / desde baixo
arder na bondade elementar
sentir a fúria como um calafrio
continuar o amor sem os alertas
companheríssimos nas difíceis
joviais nas fáceis
igualmente medidos e julgados

mas um dia uma noite uma qualquercoisa
arriscaram o corpo a miséria os versos
souberam de repente que a lei era velha
que os suaves poetas ainda que se esgoelem
ainda que vençam o vento e a lua
dispõem de uma só ocasião decisiva
a fim de que os rudes queridos companheiros
admitam que nem sempre / mas às vezes /
esses da palavra esses de calma em germe
podem ser valorosos como um sonho
leais como um rio
fortes como um imã
o grave é que sua única ocasião
é morrer
uma forma talvez de desmorrer-se
defendendo uma causa pela que outros
não precisariam morrer para serem aceitos
para serem abraçados e acreditados.

quantas vezes e em quantas substancias e cegueiras
terão insistido na candura
e buscado argumentos com raiva / resistido
para apontar o inimigo / o chumbo
que vinha no ar aniquilando
matando desmintindo desabrigando ardendo
e terão desesperado a esperança
de encurralar a confiança ou de inspirá-la

e no entanto / logo / em um segundo
em uma eucaristia de tiros
na revelação das explosões
na tortura sem promessa e última
em um instante breve como um trago
sem argumentos / sem palavras / ternos
tristíssimos finalmente e desapegados
nesse instante que não tem fim
desfeitos e refeitos de coragem
explodidos de fé / mortos de pena
deixaram de aspirar quando o lampejo
quando o sabor final e o vislumbre
quando mudaram a tênue amargura
de pequeno burguês pela de mártir.

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~ por jeffvasques em 28/01/2012.

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