Cortázar e Cris


Júlio Cortázar foi apaixonado pela escritora Cristina Peri Rossi que conheceu em seu exílio na França. O amor era não-correspondido ou parcialmente correspondido já que Cristina gostava de mulheres. Apesar disso, desenvolveram por muitos anos uma profunda amizade e intensa troca. Cortázar escreveu 15 poemas dedicados a “Cris”, como a chama… segue abaixo a tradução que fiz…

CINCO POEMAS PARA CRIS

I
Já muito além do meio
«camin de nostra vita»
existe um território do amor
um labirinto mais mental que mítico
onde é possível ser
lentamente feliz
sem o fio de Ariadne delirante
sem espumas nem lençóis nem coxas.

Tudo se cumpre em um reflexo do crepúsculo
teu cabelo teu perfume tua saliva.
E ali do outro lado te possuo
enquanto jogas com tua amiga
os jogos da noite.

II
Na realidade pouco me importa
que teus seios durmam
na azul simetría de outros seios.
Eu os teria pisado
com a cócega de meu roçar
e te riria justamente
quando o necessário e esperado
era que soluçasse.

III
Sei muito bem o que ganhas
quando te perdes no gozo.
Porque é exatamente
o que eu senti.

IV
(A justa errata)
termos nos encontrado ao final do dia
em um passeio público.

V
(Gostaria que acreditasse
que isto é o irrisório jogo
das compensações
com que consolo esta distância.
Segue então dançando
no espelho do outro corpo
depois de haver sorrido
apenas
para mim.)

OUTROS CINCO POEMAS PARA CRIS

I
Tudo o que precede é como os primeros momentos de um encontro depois de muito tempo: sorrisos, perguntas, lentos reajustes.
É raro, me pareces menos morena que antes. Se melhorou enfim tua tia avó? Não, não me agrada a cerveja. É verdade, havia esquecido. E por debaixo, montacargas de sombra, ascende devagar outro presente. Em teu cabelo começam a tremer as abelhas, tua mão roça a minha e põe nela um doce algodão de fumaça. Cheiras de novo a sul.

II
Tens por vezes
a cara do exílio
esse que busca voz em teus poemas.
Meu exílio é menos duro,
lhe sobram as defesas,
mas quando te levo pela mão
por uma ruazinha de Paris
gostaria tanto que o passeio se acabasse
em uma esquina de Montevideo
ou na minha rua Corrientes

sem que ninguém viesse
pedir documentos.

III
As vezes creio que poderíamos
conciliar os contrários
falar a centritude imóvel da roda
sair do binário
ser o vertiginoso espelho que concentra
em um vértice último
esta ceremoniosa dança que dedico
a tua presente ausência.

Recordo a Saint-Exupéry “O amor
não é olhar o que se ama
senão olhar os dois em uma mesma direção”

Mas ele não suspeitou que tantas vezes
os dois miramos fascinados a uma mesma mulher
e que a esplêndida, feliz definição
cai por terra como um cinza fantoche.

IV
Creio que não te quero,
que somente quero a imposibilidade
tão óbvia de querer-te
como a mão esquerda
enamorada dessa luva
que vive na direita.

V
Ratinho, penugem, meialua,
caleidoscópio, barco na garrafa,
musgo, sino, diáspora,
palingenesia*, feto,

isso, e o doce de abóbora,
o bandoneón de Troilo**, e duas ou três
zonas da pele onde
faz ninho o alcião***,

são as palavras que contêm
tua cruel definição inalcançável,
são as coisas que guardam as substâncias
de que estás feita para que alguém
beba e possa e arda convencida
de conhecer-te inteira,
de que somente és Cris.

* renascimento, reencarnação
** Aníbal Troilo foi um dos mais importantes e
populares músicos da história do tango.
*** Ave mitológica que fazia ninho sobre o mar.

CINCO ÚLTIMOS POEMAS PARA CRIS

I
Agora escrevo pássaros.
Não os vejo chegar, não escolho,
de repente estão aí,
um bando de palavras
a pousar
uma
por
uma
nos arames da página,
entre chilreios e bicadas,
chuva de asas,
e eu sem pão para dar,
tão somente deixo-os vir.
Talvez seja isto uma árvore,

ou quem sabe,
o amor.

II
À noite te sonhei
sacerdotisa de Sekhmet, a deusa leontocéfala.
Ela desnuda em pórfiro*,
tua limpa pele desnuda.
Que oferenda lhe rendias a deidade selvagem
que olhava através de teu olhar
um horizonte eterno e implacável?
A taça de tuas mãos continha
a libação secreta, lágrimas
ou teu sangue menstrual, ou tua saliva.
Em todo caso não era sêmen
e meu sonho sabia
que a oferenda seria rechaçada
com um lento rugido desdenhoso
tal como desde sempre
o havia esperado.

Depois, quiçá, já não o sei,
as garras em teus seios,
te satisfazendo.

* tipo de rocha ígnea, formada a partir
da lava vulcânica.

III
Nunca saberei porque tua língua entrou em minha boca
quando nos despedimos em teu hotel
depois de um amistoso percorrer a cidade
e um ajuste preciso de distâncias.

Acreditei por um momento que me davas
um encontro futuro,
que abrias uma terra de ninguém, um interregno
por onde alcançar teu minucioso musgo.

Circundada de amigas me beijaste,
eu a exceção, o monstro,
e tu a transgressora murmurante.

Quem saberá a quem beijavas,
de quem te despedias.
Fui o vigário feliz de um só instante,
o que às vezes encontra em sua saliva
um breve gosto a madressilva
sob céus austrais.

IV
Quisera ser Tirésias* esta noite
e em uma lenta espera de bruços
receber-te e gemer sob teus chicotes
e tuas fracas medusas.

Sabendo que é a hora
da metamorfose recorrente,
e que ao baixar ao vórtice de espumas
te abririas chorando,
docemente empalada.

Para voltar depois
a teu imperioso reino de falanges,
ao cerco de tua pele, teus polvos úmidos,
até arrastar-nos juntos e alcançar abraçados
as areias do sonho.

Mas não sou Tirésias,
tão somente o unicórnio
que busca a água de tuas mãos
e encontra entre os beiços
um punhado de sal.

* Na mitologia grega, Tirésias foi um famoso profeta cego de Tebas – famoso por ter passado sete anos transformado em uma mulher.

V
Não te vou cansar com mais poemas.
Digamos que te disse
nuvens, tesouras, barriletes, lápis,
e por acaso alguma vez
sorristes.

Anúncios

~ por jeffvasques em 07/05/2012.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: