Conversa de M. Benedetti com Roque Dalton



Abaixo, segue um trecho de um histórico encontro entre Mario Benedetti e o poeta-guerrilheiro Roque Dalton. Essa conversa se deu em Cuba em 1969, ano em que a Casa das Américas (instituição cultural revolucionária que se formou logo após a revolução cubana) premiou Roque.

O trecho que traduzi se refere, especificamente, a relação entre o artista/poeta e o processo revolucionária, militância e arte.

Trecho da entrevista de Benedetti a Roque Dalton (cuba-69)

MB: Pelos fragmentos que conheço de teu livro, e pelo que agora me contas, vejo que poderia ser considerado como poesia comprometida. Pois bem, que sentido você dá ao compromisso?

RD: Me parece que para nós, latinoamericanos, chegou o momento de estruturar o melhor possível o problema do compromisso. No meu caso particular, considero que tudo que escrevo está comprometido com uma maneira de ver a literatura e a vida a partir de nosso mais importante labor como homens: a luta pela liberdade de nossos povos. No entanto, não devemos deixar que este conceito se converta em algo abstrato. Eu creio que está ligado com uma via concreta da revolução, e que esta via é a luta armada.

Neste nível, entendo que nosso compromisso é irredutível, e que todos os outros níveis do compromisso teórico e metodológico da literatura com o marxismo, com o humanismo, com o futuro, com a dignidad do homem, etc., devem ser discutidos e ampliados, a fim de aclará-los para quem vai realizar praticamente esse compromisso em sua obra e em sua vida; mas em nós, escritores latinoamericanos que pretendemos ser revolucionários, o problema do compromisso de nossa literatura deve concretizar-se em uma determinada forma de luta».

MB: Dentro dessa acepção, que lugar deixas aqueles autores que escrevem contos fantásticos, ou contos realistas não referenciados a uma concreta realidade política, e que em sua atitude pessoal têm por outro lado uma militância?

―RQ: Não creio que este problema se resolva a nível de gêneros. Um combatente revolucionário pode fazer magnífica literatura imediatista, e inclusive panfletária se lhe ´da vontade ou se as necessidades da luta cotidiana assim o exigem; mas também serve à revolução se é um excelente escritor de ficção científica, já que a literatura, entre outras funções, cumpre a de ampliar os horizontes do homem. Na medida em que o povo poe captar os significados, últimos ou imediatos, de uma grande literatura de ficção, estará mais próxima de nossa luta, e mais se é capaz de analisar a alienação que o inimigo lhe impôs.

Por isso não vemos razões para apresentar a obrigação de que o escritor militante se reduza genérica ou tematicamente a uma linha muito estreita. É melhor que partamos do outro extremo, ou seja, de sua atitude ante a luta revolucionária. Uma vez que este problema está resolvido, o assunto dos gêneros e do rumo literário servirão para enriquecer a linha revolucionária que escolheu em sua vida. Por outra parte, e tal como o cita a última declaração do comitê de colaboração da revista Casa das Américas, na luta de classes se cumpre também o papel de arrebatar à burguesía o privilégio da beleza, como o sustenta Regis Debray. No terreno literário, as relações entre a militância e a literatura como resultado da criação de um revolucionário, só podem ser positivas.

Há outro terreno no qual se poderia haver conflito, e é a nível ideológico. Na medida em que, através da literatura, se apresentaram ideológicamente posições que estiveram em contradição com a militância revolucionária, se originaría um conflito, do qual não tem culpa a literatura como tal; se trataría na verdade de um problema ideológico do escritor. Aí é onde cabe situar o problema das famosas “desgarraduras” entre o poeta e o militante político, quando ambos são a mesma pessoa. “Desgarradura” é um termo que se forjou para ocultar que se trata de um problema ideológico; se querem seguir chamando assim, terão que dizer que se trata de uma desgarradura ideológica, e que portanto deve solucionar-se a nível ideológico.

MB: Em teu caso pessoal, houve conflito entre tua militância política e tua qualidade de escritor?

RQ: Em alguma ocasião me perguntaram isso, e meio rapidamente respondi que não. O que quis dizer é que para mim foi possível estruturar minha obra poética no seio de uma vida de militância política, ou seja que me acostumei a escrever na clandestinidade, em condições difíceis. Mas evidentemente existe outro nível, Tive conflitos quando tive problemas ideológicos. Cada vez que experimentei uma “desgarradura”, foi porque se me apresentava uma contradição entre uma posição política e uma posição ideológica expressada em minha literatura. Na medida em que pude superar minhas debilidades neste terreno, dei passos adiante; na medida em que os pude superar, tengo ainda conflitos.

Há uma série de aspectos da revolução, muitos deles planejados a escala mundial, frente aos quais eu possivelmente não tenho conceitos muito claros, e por isso sinto que me afetam; mas, como te dizia antes, são questões que podem absolutamente ser resolvidas no plano ideológico.

MB: Como sabe, há tempo que me preocupam os problemas derivados das relações entre o intelectual e o socialismo, entre o escritor e a revolução. Muitas vezes julgamos essa relação na base de prejuízos pequeno-burgueses e com um conceito liberal de certas palavras chaves; também em outras épocas foram propostas como soluções certos métodos relacionados com o estalinismo. Pessoalmente creio que a verdadeira solução não está em nenhum desses projetos. Quiçá devamos criar uma nova relação entre o escritor e a revolução. Ou acaso inventá-la. Gostaría de conhecer tua opinião sobre isto.

RD: Bem, você parte da realidades concretas que nos exigem definições. Por um lado, prejuízos pequeno-burgueses que se interpõe entre o escritor e as instituições do socialismo, entre o artista e a revolução no poder; e por outra parte as metodologías, destinadas a resolver este tipo de relações, que outorgara o estalinismo no passado. Creio também que você usou uma palavra justa para fazer a proposição: falou de inventar novos métodos e novos conteúdos na relação do escritor com o socialismo institucionalizado.

Pois bem, se trata de um trabalho muito amplo, que deve ser de invencão comum, na qual participem os criadores, os homens de cultura, o Estado, as instituições do socialismo, mas todos em relação com o povo, que em definitivo é o destinatário último e o produtor primário de toda a matéria cultural, em cuja elaboração não somos senã intermediários. Nas grandes perspectivas desta invenção não devem se interpor proposições segundo as quais os criadores sejamos simples ditadores de velhas opiniões, nem tampouco que se introduzam por algum resquício os métodos estalinistas que sentaram jurisprudência para resolver determinados problemas neste terreno.

A questão é verdadeiramente profunda e tem relação com os fins últimos da revolução. Na atualidade há que dar particular importância a este problema; todos estamos obrigados a participar em sua solução, assim como a iniciar a discussão com um novo estilo, dispostos a chamar os problemas por seu nome e a não perder jamais a objetividade. Devemos fazê-lo com um critério revolucionário, marxista, científico, apegado à experiência histórica e às perspectivas concretas do futuro, tal como se trabalha quando se planeja uma safra, a abertura de um novo ramo industrial ou as relações internacionais de um Estado. Entendo que podemos ver estas possibilidades com otimismo. Em nossos países, sobretudo no lugar de onde o socialismo se encarnou realmente em nosso hemisfério (me refiro a Cuba), se abrem reais possibilidades de uma instauração de novas relações e de inventá-las com audácia (precisamente a audácia foi uma característica desta revolução), com o olhar posto na América Latina, já que Cuba é o início da revolução latinoamericana.

MB: Você mencionou a dimensão histórica, e também a audácia da experiência cubana. Me parece que se a essa audácia agregamos uma modéstia verdadeira por parte do criador, talvez encontremos os elementos para resistir a duas das mais perigosas tentações de que padece hoje o intelectual: ser fiscal da história, ou ser vítima dela.

RD: Você tocou em um problema importante. Os intelectuais teríamos que nos lançar a elaboração do novo tipo de relações entre o artista e a revolução, com absoluta consciência desse tipo de perigos. A última experiência histórica nos demonstra que, precisamente por nossas debilidades ideológicas, por nossos prejuizos pequeno-burgueses, pelo tipo de sociedade na que estamos imersos e que tanto nos deformou, tratamos de preservar nossa individualidade até territórios que contradizem as raízes mesmas de nossos ideais humanistas.

Que se passou aos grandes poetas que se converteram em fiscais intocáveis da vida pública, ou aos escritores que, em nome de uma suposta liberdade intocável, tratam de converter-se em vítimas da história? Por mais comovedoras que possam nos parecer suas situações, devemos reconhecer que um a um foram caindo e terminaram por incorporar-se, muitas vezes contra seu desejo, a grande industria do espectáculo editorial, do grande show editorial que, por trás de sua aparência luminosa, tem interesses concretos que podem responder ao inimigo.

Quando uma personalidade que maneja os problemas da consciência, da história, da cultura, e que muitas vezes foi porta-voz de grandes inquietudes de nossas massas, quando um poeta a quem o povo lhe deu seu calor, cai na indústria do espetáculo a que aludo, se converte de imediato em um elemento a mais da alienação de nossas massas populares e por tudo isso passa a cumprir um trabalho histórico francamente negativo, reacionário. Nenhum de nós está livre de cair nesse risco, e por isso a vigilância sobre nós mesmos e sobre nossos companheiros deve manter-se, em um sentido revolucionário, apesar dos evidentes erros cometidos no passado por parte de instituições de estados socialistas nos ponham muitas vezes em guarda contra certas palavras.

Estamos entre revolucionários e deixaríamos de sê-lo no momento em que entregássemos as armas da crítica; mas não simplesmente como escritores, senão também como cidadãos de um país, como revolucionários. Ademais, como escritores, temos direito a crítica, e a apresentar os problemas no nivel que seja, e com a profundidade que nos imponha nossa consciência. No entanto, devemos estar vigilantes com respeito a outra situação: sejamos responsáveis ante nós mesmos desses perigos que você assinalou, na medida em que estivermos dispostos a não nos ofender por chamar-nos servidores de nossos povos. Se há escritores a quem lhes parece humilhante servir ao povo, francamente não vale a pena que falemos deles.

MB: Assim como dizíamos que convém estudar a relação entre o escritor e o socialismo, dentro de um estado socialista, creio que também deveríamos estudar os problemas derivados da presença de um escritor revolucionário dentro de uma sociedade capitalista, ou seja dentro de um mercado de consumo.

RD: Quando apontávamos que um escritor inserido em um país socialista pode cair na tentação da industria mundial do espetáculo editorial, ou seja na industria que persegue a alienação das massas populares, estávamos assinalando um perigo real mas também excepcional. Por outro lado, o escritor que trabalha no mundo capitalista, vive imerso numa situação presidida por um grande aparato que em geral está a serviço da ideología do inimigo, e por isso corre o risco de converter-se em sua vítima imediata. Ainda o escritor que se rebela, ainda o escritor que é digno de seu papel e luta contra a alienação, pode ser uma vítima desse aparelho e ser iludido em diferentes niveis.

MB: Algo assim como uma “operação sedução”.

RD: Ou uma “operação suborno”, que inclui manobras destinadas a dotá-lo de uma boa consciencia apesar das concessões que pouco a pouco se lhe podem arrancar. Tudo está destinado a um fim último: assimilá-lo ao grande aparato de alienação, montado contra nossas massas populares.

MB: O mero feito de neutralizá-lo, não é acaso um bom dividendo para o inimigo?

RD: Desde cedo, neste aspecto o inimigo exerce uma ação cotidiana, custosísima, que se manifesta em todas as ordens da vida cultural: edições luxuosas, excelente propaganda do livro, glória efêmera, a possibilidade de converter-se em um tipo de prostituta intelectual, muito bem paga, ou num palhaço simpático a serviço dos interesses mais inconfessáveis, ainda que às vezes, nos melhores e mais inocentes dos casos, não se tenha consciência disso. O que me produz preocupação é que tais manobras de sedução alcancem a muitos de nossos companheiros e que estes não advirtam que ao cair na falta de seriedade, na palhaçada, ou nas concepções diretas do inimigo, estão contribuindo a criar nos povos a imagem de que ao intelectual só lhe interessa a frivolidade, a publicidade, as baboseiras.

MB: Por isso mencionava a modestia. Dentro da operação-sedução, um dos elementos que melhor maneja o inimigo é um fino tratamento da vaidade. Frente a modéstia verdadeira, uma modéstia que é também orgulho, o imperialismo se sente desarmado. Agora, voltando a tua poesia, como você acredita que este livro que acaba de ser premiado, e tua poesia em geral, se inserem na literatura salvadorenha?

RD: As origns culturais de minha produção, e o feito de tratar, por meio da literatura, de voltar a meu país, com uma visão talvez enriquecida pela experiência do exilio, são na realidade contribuições de meu país ao que eu faço. Há ademais certos esquemas mentais, certas estruturas de linguagem, que são absolutamente salvadorenhas. Mas no que se refere a minha obra poética, não creio que seja continuação, ou que tenha recebido influência decisiva de quem escreveu poesía em El Salvador. Pelo contrário, em porcentagem bastante alta parti de um rechaço a poesia que anteriormente se havia escrito em meu país, poesia muitas vezes inofensiva, que rara vez foi a fundo. E isto não é somente uma apreciação pessoal, senão que é também o que diz a crítica salvadorenha a respeito do que ali se conhece de minha poesia. Precisamente se assinala seu caráter de ruptura.

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~ por jeffvasques em 10/06/2012.

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