Canto do companheiro de rota


Tradução de um belo poema de José Pedroni, poeta argentino (1889-1968).

Canto do companheiro de rota

Deixa-me marchar com vocês,
poetas surgidos do povo;
deixa-me ser vosso companheiro de rota
em meu último trecho.

Não quero ficar esquecido
em um mundo velho.
Quero marchar com aqueles que “entoam
os cantos novos dos tempos novos.”

Deixa-me ser vosso companheiro de viagem.
Venho de longe.
Veja aquele confim de pedra e fumaça;
aquele deserto.

Para alcançá-los na marcha
me livrei de todo o peso.
Tive que atravessar minha própria noite
de extremo a extremo;
abrir-me passo entra as ramas negras
de um bosque seco…
Para alcançá-los na rota
do ar fresco.

Cheguei, por fim,
mas estou pelo chão.
Ajuda-me a me por de pé,
poetas surgidos do povo;
leva-me onde a água;
dá-me vosso lenço;
ensina-me um lugar de trigo jovem,
para jogar-me de peitos,
e deixa-me dormir meu primeiro dia
em vosso dia novo.

Toda a noite comtemplei as luzes
da cidade sem medo.
Está ali, junto a um rio,
onde o trigal se encontra com o céu.
Porque vou alcançá-la e perdê-la,
quero chegar com os primeiros.

Cheio de ramas mortas está a árvore
do mundo velho.
Já se o vê no poente.
O vento é forte e fresco.
Traz o rumor de vocês
do batalhão do povo
que às costas leva a árvore e os pássaros
do mundo novo.
Os poetas estão no caminho
e fazem ali os versos.
Estão poeta, operário e campesino
unidos na folha do trevo.
Há quem olha e não vê; há quem não olha
o canto mensageiro,
e há quem se põe à rua
para alcançar o trovão
da marcha de vocês e de papoulas.
Eu sou um destes.
Minha porta fica aberta
e a golpeia o vento.

Deixa-me ir com vocês
companheiros!

Uma pomba que me guia, branca,
será meu formoso sonho;
a pomba que espera e se adianta,
de curtos voos;
a pombra que todos vemos
uma vez ao menos;
que se recorda como a um anjo,
o anjo bom.

Ao despertar-me, não digam de mim
nem isto nem aquilo.
Atrás deixei a noite do passado,
e já não a recordo.
Se algo quer dizer,
diga: – Chegou o bom velho.
Diga: – Quer ser nosso companheiro de rota;
quer que o levemos;
quer marchar com aqueles que “entoam
os cantos novos dos tempos novos”

Atrás deixei os fardos do passado.
Já não os sinto.
Não me deixavam ver os cumes.
Me livrei deles.
Como a planta sem a pedra,
estou direito.
E agora quero marchar com vós,
poetas verdadeiros;
fazer vosso caminho
de sol e nascimento
de trigo e bosque resgatados
e de galos que cantam nos tetos.

Dá-me a voz, que é tarde,
logo, que se vai o tempo.
Sobre a rota estou com meu cavalo.
Não posso contê-lo.

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~ por jeffvasques em 14/07/2012.

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