Viciado em Amar e Evitar


Os codependentes em geral se envolvem com vícios para fugir da realidade agoniante, da sensação de abandono e vazio, e parar obter alguma satisfação, ainda que passageira: vício em alcool ou drogas, vício em sexo, em jogos, em trabalho, em comida, e sim, em militância… um dos vícios possíveis, e pouco conhecido/debatido, é o vício em amar/evitar (não confundir com o vício em sexo), sobre o qual vou falar um pouco a partir da leitura do livro de Pia Mellody, disponível aqui para download.

Mas, antes, lembremos os 4 eixos fundamentais que caracterizam a personalidade codependente (estou deixando de fora o 5o eixo, de expressar-se moderadamente, pois não é central para esta discussão):

1. grande dificuldade em manter níveis saudáveis de auto-estima;
2. grande dificuldade em manter os limites de sua identidade no relaciomento (“gosma”);
3. grande dificuldade de cuidar de si mesmo;
4. grande dificuldade de se relacionar com sua realidade (compreender seus sentimentos e desejos);

O codependente está, em geral, envolto por fortes sentimentos de abandono, rejeição e vazio decorrentes de relações traumáticas ou disfuncionais vividas em sua família, em geral, quando criança/adolescente.

O viciado em amar/evitar

O codependente que desenvolve o vício em amar se lança compulsivamente em relações fadadas ao fracasso. Essas relações são fadadas ao fracasso pois o viciado em amar busca estabelecer relação, em geral, com viciados em evitar, também codependentes. Essa é uma combinação tóxica…

O viciado em amar apresenta como maior força as características 1 e 3 (baixa ou nula auto-estima e incapacidade de cuidar de si mesmo), fruto da vivência de situações de abandono concretas (pais ausentes, agressivos, negligentes, frios) e, por isso mesmo, busca parceiros que lhe pareçam “fortes” e capazes de cuidar de si, que lhe supram com atenção, carinho e segurança, afastando ao máximo o temor do abandono.

O viciado em evitar, por sua vez, apresenta com maior força as características 2 e 4 (frouxos limites de identidade e incapacidade de sentir sua realidade/sentimentos), fruto da vivência também de situações de abandono, mas que se manifestaram como um envolvimento nocivo dos pais com o filho, constituindo situações de abuso emocional/sexual (em geral, pais que tornam seus filhos direta e indiretamente responsáveis por sua sanidade emocional, ou seja, pais que rompem os limites da identidade dos filhos e os tornam seus cuidadores, “sugando” sua energia e os controlando). Viciados em evitar possuem, por isso mesmo, enorme medo de intimidade, pois acreditam que estabelecendo intimidade serão controlados novamente e “sugados”, “drenados”. Buscam, portanto, parceiros frágeis, com auto-estima baixa, que indicam pouca possibilidade de controle sob sua personalidade.

A relação interviciada

O viciado em amar e o viciado em evitar, portanto, se atraem mutuamente: o 1o parece frágil e adequado ao 2o; e o 2o parece forte e capaz de tomar conta do 1o. Mas, logo que a relação supera os momentos iniciais de encantamento, os problemas começam.

O viciado em amar passa a sentir que seu parceiro (viciado em evitar) possui algum outro foco de atenção para o qual desvia energia que deveria lhe servir (muitas vezes um outro vicio secundario, ou um trabalho, ou outra pessoa). Isso gera no viciado em amar o retorno do medo de abandono vivido em sua situação traumática original, e este passa a fazer de tudo para obter o máximo de atenção e cuidado, buscando impedir que o desfecho traumático se repita e, por isso mesmo, passa a demandar mais de seu parceiro e a controlar seus passos, atitudes e sentimentos.

O vicidado em evitar, por sua vez, assim que a relação ganha corpo, passa a temer a intimidade na relação (associada ao perigo de ser controlado e ver borrado os limites de sua identidade) e arranja mecanismos (um outro vício secundario, um outro parceiro sexual) para se afastar do viciado em amar, buscando dar outro fim a experiência traumática que viveu em sua família (não quer ser controlado e “drenado”). Com essa “fuga”, o viciado em evitar aumenta ainda mais o sentimento de abandono do viciado em amar que ampliará a demanda e pressão por intimidade (controle) o que fará o viciado em evitar se afastar mais ainda.

É um ciclo tóxico e retroalimentado que leva a níveis cada vez maiores de estresse e sofrimento até que o viciado em amar comece a se afastar (desistência) seguido da retomada da aproximação pelo viciado em evitar (assutado com o sentimento de abandono ou culpa). Portanto, ou o ciclo se retoma, só que sempre num patamar mais elevado de tensão/medo (e cada vez com menos satisfação), ou então, um dos dois viciados, não aguentando mais a situação, rompe a relação e busca novo parceiro.

Observe abaixo na imagem como os ciclos se encaixam:

Para complicar mais ainda a situação, dependendo das experiências de abandono vividas na infância, os papéis de viciado em amar e viciado em evitar podem ser trocados ao longo de uma relação. Ou ainda, alguém que agiu como viciado em amar numa relação de final traumático pode passar a agir como viciado em evitar em várias outras, e depois, voltar ao vício em amar. O importante é entender que tanto o viciado em amar como o viciado em evitar buscam reviver as experiências traumáticas da infância dando-lhe final diferente. Mas como já partem com expectativas irreais sobre seu parceiro, fruto de sua codependência, essas relações estão fadadas a repetir o mesmo final traumático original: o viciado em amar quer encontrar seu salvador, que lhe ame incondicionalmente e tome conta de si (isso não é possível); o viciado em evitar quer encontrar alguém que o adule (era emocionalmente responsável por um ou pelos dois pais, em sua infância, por isso precisa sentir-se forte diante do outro), mas que, ao mesmo tempo, não crie intimidade a ponto de fazê-lo se sentir cobrado e controlado (igualmente impossível).

Tanto viciados em amar como viciados em evitar não se sentem atraídos por relacionamentos com parceiros “saudáveis”. Em geral, sentem essas relações como enfadonhas e desvalorizam esses parceiros. Ambos identificam muito rapidamente (num primeiro encontro, muitas vezes) quando estão diante de seu parceiro tóxico: viciado em amar ou viciado em evitar.

O que fazer?

É preciso, primeiramente, estancar o vício de amar/evitar, sintoma secundário da codependência, passando por todas as fases da abstinência. Sem interromper o vício, todo o processo de luta contra a codependência se torna praticamente impossível. Estancado o vício, deve-se enfrentar os sintomas primários da codependência, buscando repassar os traumas infantis originários. Sem enfrentar o profundo sentimento de abandono que tanto viciados em amar/evitar sentiram na infância, ressignificando-o em sua vida atual, dificilmente estes poderão estabelecer relações saudáveis.

PRESENTINHO

Há um poema do meu 1o livro chamado “Presentinho” que sempre soou para mim mesmo enigmático. Agora, o compreendo um pouco melhor. Ele tampouco é um poema de “maldizer”… ele realmente foi feito como um presente, como algo bonito que queria dar para essa outra pessoa com quem estava envolvido… mas era uma beleza estranha, torta, própria das relações entre codependentes, própria de relações em que se revive o trauma originário. Há uma beleza profunda, intensa e sedutora na parceira, mas uma beleza também escura, macabra, “fatal” (pois já se apresenta, tragicamente, pralém das aparências, o “fim” traumático novamente). O poema capta bem essa ambiguidade (essa “beleza que não é”, que está por trás, nas “dobra”, “vultos”…) e parece nascer no exato momento em que eu percebo, pelo meu estômago, que a relação, em alguma medida, está fadada a repetir o trauma originário do abandono (“como um menino assustado diante da primeira morte”). Poderia falar muito sobre cada verso (e sobre a epígrafe!), mas deixo a poesia na íntegra para a interpretação de vocês.

PRESENTINHO
(Jefferson Vasques)

“ (…) porque com seu canto melodioso, elas o fascinam, sentadas na campina, em meio a montões de ossos de corpos em decomposição, cobertos de peles amarfanhadas” (Odisséia de Homero)

você parece tão bonita
linda, mesmo,
e até me faz parecer um sujeito daqueles
que tem vontade de te dar coisas bonitas
e assobiar quando o vento pede

mas minhas vísceras
– ontem a noite –
já me disseram tudo

agora sei
que você não é a beleza, nem o amor, muito menos uma linda flor que se cheire
nem seu olhar é o barulho duma gota d’água no meu ouvido
nem seu corpo é a lua derretida com chocolate branco sobre frutas frescas

você é o terror nos olhos chupando mangas deliciosamente
você é o horror só de calcinhas
você é o intestino grosso da minha noite em funcionamento
você é minha mãe magra e morta de lingerie transparente dançando de olhos fechados na frente de um espelho

queria te dar
a beleza que você
não é

(dobras, furos, vultos, ocos, sumos, gozos,
mucos, húmus, crotos, grumos, brógros, mungruns)

queria te dar
esse cheiro dos suores
escorridos da rua inteira
que fermentam juntos
nos bueiros

queria te dar
o cu do medo entreabrindo-se
como uma flor
sensível
ao dedo

queria te dar o espasmo
de mim mesmo

mas não consigo

e assustado
– como um menino diante da primeira morte –
te dou este ainda fresco
pequeno e
remexidamente vivo
rabo de lagartixa.

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~ por jeffvasques em 25/11/2012.

2 Respostas to “Viciado em Amar e Evitar”

  1. Muito bom ( e verdadeiro).

  2. Quem nunca viveu relações do tipo que você assinala? Que família não sufoca, castra e deforma suas crianças e jovens? Os viciados em militância, conheci-os aos montes. Criaturas que fazem da vida político-partidária, um divã de psicanálise. Após tanto desencanto, decidi espalhar meu amor em muitas direções. Acho que, com muito custo, consegui construir algum equilíbrio. Amo-me o suficiente para amar aos demais, -ainda que não me amem -. Mas, para além disso, amo o sol, o mar, as estrelas, as plantas, os animais, a literatura (sobretudo a poesia),…amo as idéias e as cabeças que as elaboram; a teoria da evolução da espécie; o marxismo em trotsky…Enfim, amo tudo o que liberte; nisso, mesmo a morte tem sua função.
    Ódio, tenho apenas um. Todos os dias, a todo momento, desejo e conspiro ardentemente contra o capitalismo.
    (Seus poemas são sempre muito belos e viscerais. Expressões de um verdadeiro artista.)
    Um grande abraço,
    maria

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