Um salve ao porvir


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Me delicio ao descobrir novos e fantásticos poetas lutadores… desta vez, descobri um cubano e um bem famoso: Roberto Fernandéz Retamar!! Não sei como não o conheci antes… aqui 4 poesias que traduzi…

UM SALVE AO PORVIR

Não há provas.
As provas são que não há provas.
Não estavam, não estão, não estarão dadas as condições.
Crer porque é absurdo,
e cremos.
Mais absurdo que crer é ser,
e somos.
Nada garantirá que seja menos absurdo
Não ser e não crer.
As chamadas provas ficam pela terra,
úmidas relíquias da nau.
Se derrumbaram as estátuas enquanto dormíamos.
Eram de pedra, de mármore, de bronze.
Eram de cinza.
E um grito de anatídeos as fez ruir em revoadas.

Não guardar tesouros onde
a umidade, os bichinhos os mordisquem.
Não guardar tesouros.
O tesouro é não guardá-los.
O tesouro é crer.
O tesouro é ser.

Não existem as façanhas nem os horrores do passado.
O presente é mais veloz que a leitura destas mesmas
palavras.
O poeta saúda as coisas por vir
com um salve na noite escura.
Só o difícil.
Só o escuro.
E contra ele, nele, o fogo levantando
Sua coluna viva, dourada, real.

O amor é
Quem vê.

UM HOMEM E UMA MULHER

Que há de ser
um homem e uma mulher?

Tirso de Molina

Se um homem e uma mulher atravessam ruas que ninguém vê
senão eles,
ruas populares que vão dar ao entardecer, ao ar,
com um fundo de paisagem nova e antiga mais parecida
a uma música que a uma paisagem;
se um homem e uma mulher fazem nascer árvores a seu passo,
e deixam acesas as paredes,
e fazem virar as caras como atraídas por um toque de
trombeta
ou por um desfile multicor de saltimbancos;
se quando um homem e uma mulher atravessam se detém
a conversa do bairro,
param as cadeiras de balanço sobre a calçada, caem os chaveiros
nas esquinas,
as respirações fatigadas se fazem suspiros:
será por que o amor cruza tão poucas vezes que vê-lo é motivo
de estranheza, de sobressalto, de assombro, de nostalgia,
como ouvir falar um idioma que acaso alguma vez já se soube
e do qual apenas restam nas bocas
murmúrios e ruínas de murmúrios?

FELIZES OS NORMAIS

Felizes os normais, esses seres estranhos
Os que não tiveram mãe louca, um pai alcoólatra, um filho delinqüente.
Casa em lugar nenhum, uma doença desconhecida,
os que não foram reduzidos a cinzas por un amor devorante,
os que viveram os dezessete rostos da alegria e um pouco mais.
Os cheios de sapatos, os arcanjos com chapéus,
os satisfeitos, os gordos, os lindos,
os rintintin e seus seqüazes, os que “como não, por aqui”,
os que ganham, os que são queridos até o punho,
os flautistas acompanhados por ratos,
os vendedores e seus compradores
os cavalheiros ligeiramente sobre-humanos
os homens vestidos de trovões e as mulheres de relâmpagos,
os delicados, os sensatos, os finos
os amáveis, os doces, os comíveis e os bebíveis.
Felizes as aves, o estrume, as pedras.

Mas que dêem passagem aos que fazem os mundos e os sonhos,
as ilusões, as sinfonias, as palavras que nos destróem
e nos constróem,os mais loucos que suas mães, mais bêbados
que seus pais e mais delinqüentes que seus filhos
e mais devorados por amores calcinantes.
Que a eles seja dado seu lugar no inferno, e basta.

O OUTRO

Nós, os sobreviventes,
A quem devemos a sobrevida?
Quem morreu por mim no calabouço,
quem recebeu a minha bala,
a que era para mim em seu coração?
Sobre qual morto estou eu vivo,
Seus ossos permanecendo nos meus,
os olhos que lhe arrancaram, vendo
pelo olhar de minha cara,
e a mão que não é sua mão,
que também já não é a minha,
escrevendo palavras rotas
Onde ele não está, na sobrevida?

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~ por jeffvasques em 05/12/2012.

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