Abaixo a monogamia!


destarva lingua

Em minhas pesquisas sobre codependência também tenho ido procurar textos que reflitam sobre as relações afetivas partindo da perspectiva marxista. Faço isso buscando complementar as leituras… Descobri recentemente através do texto da Lygia Vampre o Bleger, por exemplo, argentino que faz um samba do criolo doido misturando psicanálise e materialismo dialético, assim como o Reich buscou fazer… já encomendei 2 livros dele e em breve espero comentar…

Mas eu queria mesmo falar do livro “Abaixo a monogamia!” do Sérgio Lessa… apesar dele não entrar nos meandros psicanalíticos (uma puta ausência nos estudos marxistas que se enveredam pelas relações afetivas), apesar disso, o texto dá uma base muito boa pra compreender porque chegamos onde chegamos: em relações monogâmicas neuróticas, possessivas e, em última instância, já impossíveis. Mas não pense que ele vai fazer a crítica da monogamia proclamando a poligamia… pelo contrário, desce igualmente a lenha nas propostas que se dizem “alternativas” como poligamia, amor livre (ou qualquer outro nome mais moderno). Mostra como essas propostas são, apesar de buscas de algo novo, ainda manifestações do individualismo e do patriarcalismo.

“Poxa, então não são possíveis novas relações enquanto a estrutura social determinante não mudar?” São possíveis experimentações… o novo já vem rompendo, já vai aparencendo… a impossibiliade cada vez mais evidente da monogamia, a hipocrisia cada vez mais exposta da possessão compulsiva já indicam que essa relação não nos serve mais e o novo já está sendo exigido… mas ainda é longo o caminho até firmar-se o novo… o caminho ainda é dolorido e cheio de perigos: muitas vezes o novo é a mais pura recompilação do velho… e, outras tantas, o novo nos exige tanto que acabamos, depois de estressados e traumatizados, buscando o velho e tranquilo… somos homens e mulheres de transição! O futuro já nos mastiga em sua garganta… e isso já me alegra!

Pra quem quiser baixar o livro é só clicar aqui

E fecho com uma bela passagem do livro e depois com mais uma esperançosa passagem de Engels, que tanto estudou a constituicao das relações familiares:

“Se isso for correto, as teses acerca do “amor livre” (a tese do copo d’água de Kollontai, por exemplo) que com frequência circulam pela nossa esquerda, são insuficientes para nossas necessidades e nossas possibilidades afetivas. De um lado, porque são de um individualismo a toda prova: as necessidades mais individualistas são as que presidem o desenvolvimento da relação. Enquanto interessar, o indivíduo se envolve. No momento em que não for mais assim, “desaparece” – de preferência sem deixar traços! Em segundo lugar, porque é de uma irresponsabilidade também a toda prova: pouco se importa com as consequências para a pessoa, como também para o parceiro (seria demais denominar de amante). O hedonismo de tais teses e relações é tamanho que quase vale se perguntar: amor livre de quê? Como se o amor pudesse verdadeiramente surgir e se desenvolver sem intensas e ricas relações sociais e afetivas que, ao invés descompromissar os indivíduos, os tornam muito mais intensamente responsáveis e solidários com o(a) amado(a). E, ainda mais, que tais sentimentos apenas podem se desenvolver em indivíduos que são capazes de uma rica conexão com o mundo – mesmo no intenso patamar de alienações em que hoje vivemos. O “amor livre”, assim posto, é inteiramente compatível com a concepção de mundo fetichizada e banal do pós-modernismo. Mas sobre isso, agora, não temos espaço senão para essa rápida menção.

Em franca oposição às teses do “amor livre”, relações afetivas mais duradouras, mais densas e profundas, que envolvem mais intensamente a totalidade das personalidades das pessoas envolvidas, parecem ser as mais adequadas para atender às necessidades e possibilidades afetivas dos indivíduos que hoje somos; e a possibilidade de superposição de dois grandes amores não parece se contrapor à tendência histórica que faz de relações mais profundas e duradouras as mais adequadas para nosso desenvolvimento. O contrário parece ser o mais correto: vivemos um momento histórico no qual a necessidade por relações duradouras e profundas não elimina a possibilidade
da superposição de grandes e autênticos amores.” (Sérgio Lessa)

E Engels fecha belamente:

“(…) se verá quando uma nova geração tenha crescido: uma geração de homens que nunca se tenham encontrado em situação de comprar, à custa de dinheiro, nem com a ajuda de qualquer outra força social, a conquista de uma mulher; e uma geração de mulheres que nunca se tenham visto em situação de se entregar a um homem em virtude de outras considerações que não as de um amor real, nem de se recusar a seus amados com receio das consequências econômicas que isso lhes pudesse trazer. E, quando essas gerações aparecerem, não darão um vintém por tudo o que nós hoje pensamos que elas deveriam fazer. Estabelecerão suas próprias normas de conduta e, em consonância com elas, criarão uma opinião pública para julgar a conduta de cada um. E ponto final.”

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~ por jeffvasques em 11/12/2012.

8 Respostas to “Abaixo a monogamia!”

  1. ay que alívio ler, vou ver o livro já, eu adoro o Lessa!!

  2. Muito bom o texto. Esta é uma temática espinhosa e de difícil trato quando tentamos partir do concreto e não do abstrato. É mais fácil visualizar a superação da monogamia num futuro longínquo do que viver relações profundas na sociedade atual, com o predomínio de relações tão superficiais e fluidas. Aguardarei sua resenha dos livros argentinos.

    • Ricardo, espinhoso e dolorido! Os livros do Bleger já chegaram, em breve posto algo!!! =) Abraçao, jeff

  3. A monogamia é, por sua natureza, uma imposição das relações de posse e dominação. Sua razão histórica de ser, justifica-se pela existência da propriedade, e não por uma necessidade das relações humanas. Nenhum casal humano pode ser feliz e monogâmico “até que a morte os separe”…A tentativa de manter esta farsa, naturaliza a hipocrisia e, via de regra, é a razão de violentas agressões e o assassinato de mulheres.

    Abs.,
    maria

    • Sim, Maria, a mulher é certamente a que mais sofre com a família monogâmica!!! beijos, jeff

  4. A citação de Engels é de qual livro?

    • Olá, Sturt! É do “A origem da família, da propriedade privada e do Estado”, edição de 1979, pag 90-91! Abracos, jeff

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