Simbiose ou codependência?


umnooutro

Chegaram os dois livros que encomendei do psicanalista argentino José Bleger: “Psicanálise e Materialismo Dialético” e “Simbiose e ambiguidade”.

Ansioso, já dei uma lida na “diagonal” no segundo livro, que é o mais profundo e interessante. E fiquei muito animado ao perceber que não é outra coisa que a codependência o que Bleger está pesquisano nessa sua obra. Mas, claro, com maior profundidade, abrangência e diálogo com os clássicos da psicanálise do que o que ocorre nos livros de autoajuda.

Como li muito rapidamente e pulando trechos, vou apenas sistematizar o que mais ou menos compreendi até agora. A “simbiose” se refere a codependência (termo que vai surgir e se popularizar na década de 80, alguns anos depois do estudo do Bleger). Pra entender a simbiose, preciso dar uns passinhos atrás:

Todos possuímos em nossa psique “objetos aglutinados” que são porções
do ego que permaneceram imaturas, relações primitivas do ego com objetos internos ou externos que permanecem indiferenciadas, ou seja, em que não há discriminação (fusão do interno e externo, estado sincrético). Eu penso o “objeto aglutinado” como uma pulsão, um jeito que achei pra entender. O objeto aglutinado é o “núcleo psicótico” da personalidade.

Desenvolvemos relações de dependência simbiótica justamente para tentar controlar esse objeto aglutinado. Explico melhor: esse objeto aglutinado é percebido pelo ego como algo assustador e confuso que o ameaça de dissolução (pois é todo indiferenciado e primitivo). O ego não consegue lidar com ele diretamente. Logo, através da projeção desse objeto aglutinado (dessa pulsão, dessa energia psiquica) em outra pessoa é possível se distanciar e imobilizar o objeto aglutinado (controlar a pessoa com a qual me relaciono e por limites), posso discriminá-lo (compreender através das múltiplas relações que estabeleço com o outro as diversas facetas desse objeto aglutinado), e até mesmo, reintrojetá-lo (absorver o objeto aglutinado, ao poucos, no ego). Importante: para que a simbiose ocorra é necessário que o outro assuma o papel/função do objeto aglutinado que estou projetando nele.

Todos estabelecemos relações simbióticas, pois todos possuímos núcleos psicóticos (não diferenciados) com os quais não conseguimos lidar diretamente. A paixão, em geral, é um bom exemplo de relação de projeção simbiótica. Mas, dependendo do caráter e da intensidade do “objeto aglutinado” pode-se desenvolver uma relação patológica de simbiose. A simbiose pode manter o objeto aglutinado, a pulsão, intacta; uma simbiose rompida ou tensa pode por o objeto aglutinado em movimento abrupto, pondo em risco o ego; ou ainda, a simbiose “boa” pode permitir a reintrojeção do objeto ao ego.

Na definição do Bleger: “A simbiose é uma estreita interdependência entre duas ou mais pessoas que se complementam para manter controladas, imobilizadas e, até certo ponto, satisfeitas as necessidades das partes mais imaturas da personalidades; tais partes exigem condições que estão dissociadas tanto da realidade como das partes mais maduras ou ntegradas da personalidade”. Toda a técnica psicanalítica vai buscar colocar esse objeto aglutinado, que está imobilizado pela projeção num outro, paulatinamente em movimento para que possa ir discriminando suas partes (desfazendo a confusão) e assim permitindo que o ego absorva os fragmentos desse objeto aglutinado.

Bom, ao longo do livro, Bleger vai esquadrinhar o processo da simbiose e o processo psicanalítico de enfrentar a simbiose, assim como se aprofunda também na “ambiguidade” que é um estado próprio da simbiose (que envolve as tradicionais características da codependencia como: incapacidade para decidir, frageis contornos de identidade). Dialoga o tempo todo com os clássicos da psicanálise e usa casos clínicos para exemplificar o que diz. Não vou me arriscar a dizer muito mais, pois fiz uma leitura rasa e rápida do livro, mas ficou evidente pra mim a importância dessa obra pra compreender o fenômeno da “codependência”. Assim que me aprofundar mais (e isso só deve ocorrer depois de fevereiro), escrevo mais aqui.

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~ por jeffvasques em 22/12/2012.

Uma resposta to “Simbiose ou codependência?”

  1. Muito boa essa explicação da simbiose, me ajudou .

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