Passarin avoando…


jeff
Querid@s, o Passarin vai ficar parado por um tempinho (ou melhor, parado aqui, avoando alhures!)… estarei viajando por Nuestra América, buscando a poesia dos lutadores, fazendo cursos de clown e, nas horas vagas, me perseguindo nas esquinas dos olhos dos outros… Talvez consiga postar uma coisa ou outra nesse período. Garantido que volto a publicar regularmente em março. Boas festas a todos! E que 2013 seja ano de muitas lutas íntimas e sociais! Segue um poema fresquin e um outro, do meu primeiro livro, sobre o fim de ano ;) Obrigado a todos que dialogam comigo aqui no Passarin!

distância entre pergunta e resposta

quanto amor ha no amor?
qual o fundo do fim?
quando fende o futuro?
quanto mede o presente?
quanto medo?
quanto de morte no suspiro?
quanto de vida no gozo?

até quando nos despedimos
das despedidas?
o que é volta?
o que é ida?

o que finda?
o que fica?
o que finca?

nada pode o olvido,
drummond?

quando a esperança amargura?
quando a amargura se esperança?

quantos passos juntos do seu?
quantos cílios longe?
quantos lírios?
quantos fílios longe?
quantas pedras no caminho?
quanto caminho por entre pedras?
quantos horizontes no olhar?
quanto olhar para ver?
quanto perder para achar?
quanto ser?
ou não ser?

qual a melhor morte?
qual a vida que o valha?

quantos beijos até você?
e quem?
é?
você?

quantos não somos?
e tantos que fomos?
seremos como?
quantos de nós
iguais a tantos
outros
de nós mesmos?

quando nos veremos
novos
de novo?

quantas mãos na minha
até trair a solidão?
quantas mãos minhas
no sim?
e no não?
quanto rasgar de peito
e meter-se dentro?
quanto rasgar-se dentro
e meter o peito?

quantos olhos por meus olhos?
quantos bocas por minha boca?
quantas palavras realmente
minhas?
quantas outras?

quanto “te amo” dito sem olhos?
quanto “te amo” dito sem peito?
quanto “te amo” dito sem corpo?
quanto “te amo” vagando sozinho
por entre ruas,
olhares de ninho?

quanto “te amo”
sem palavras?
sentido?

e quando não mais
“te amo”?
por que? como?
quando?

(colecionei sonhos nas chuvas
da infância
e cheguei a ilha
de vê-los
agora preparo
barco de
sermos…)

quantas vezes se perguntar?
quantas mais vezes se responder?

e quando e como será?
o novo?
e quanto tanto?
muito? pouco?
o mesmo?
tão pouco? quando?
quão?
e com quem? como?
e felizes seremos?
até quando?
quanto adeus
dentro das mãos?
e mesmo assim,
e por quê não?
e por quê sim?
e por quê tão?
e por quê fim?
e por quê não?

enfim…

o que
se perde

e

o que
se ganha

nada
nunca

te mos
trará

o fiel

dessa
balança

anda!

Bissextos

Bissextos

I.
tô tentanto, agora mesmo,
explicar pro meu peito
que o ano acabou

me olho no espelho
que reflete meu rosto
do mesmíssimo jeito
feito
nos dez minutos anteriores

me olho nos olhos
bem no meio do sombrio dos olhos
– lá onde sei que por trás dos tocos
ainda se escondem rastejantes
2006, 2005, 2003
e até 1997 –
lá onde a água é parada
e a cor não é das melhores.

Me olho nos olhos
e é como se todos que conheço
me olhassem de volta
apreensivos.
Os ignoro
e estico um sorriso orgulhoso
das vitórias do ano
– bem a la feliz 2008! –
o que faz rir
todos os ogros
que habitam
minhas dobras.

Desarmo o sorriso.
(me sinto melhor assim
e mais charmoso,
assim como
um homem manco
é mais charmoso).

Nada mudou
e pronto.

Mas,
lá fora
e acima
e adentro
os rojões explodem
meus argumentos.

o céu se enche de violetas,
gozos,
incandescências!

Mas meu olhar treinado no despropósito
vê, apenas, ao longe
a estrela da vida inteira
que humilde tremeluja
fria
no espaço turvo
da meia-noite
(sem nem se dar conta que
mais um ano se passou
e que eu, agora, já tenho trinta.)

Posso ouvir
a algazarra dos vizinhos
e sua alegria sinceramente desmedida
desmedidamente sincera.
Sou, talvez,
a primeira indiferença
ranzinza
do bairro (da cidade? da estratosfera?)
em 2008.

Agora
às 2h36
de 01 de janeiro de 2008
o silêncio vindo das ruas
(e de dentro dos olhos górdos de peru)
já é o mesmo
das 22h45 do dia
31 de dezembro
do ano que se passou.

4 horas de um fogo branco
queimando o ano os meses dias e noites.
Queimando os suores, os medos,
os silêncios, os sonhos,
a surpresa dos primeiros prazeres,
e o enjôo dos beijos sem-amor.
Milrastros de pólvora
queimando
toda a história
toda a merda desse peso
às costas
dessa mão que não sabe o rosto
desse coração encravado no peito
dessa moeda engasgada na goela

(e que água tão ardente
pode saciar a sede
de tanta secura nos corpos?)
bombas-relógio em contagem regressiva
enquanto todos aguardam
TRÊS nas salas,
DOIS nas cozinhas,
UM frente ao mar,
o momento de ser feliz de novo…

Pronto!
Gritem! Corram!
É a zero hora!
é a hora sem hora!

A vida toda de um ano
queimando-se em apenas
4 horas de
(comoventes)
artifícios
de fogos e esperança.

(Como deve sentir
a chegada do “novo”
– e com que fogo queima sua história –
o motorista que vi passar
guiando o ônibus
às justas
24 horas e 12 minutos
pela frente de minha casa?
E que na hora da virada
devia passar da segunda
para a primeira marcha
enquanto se preparava
para a lombada
e para mais um
ano?)

II.
Que esperanças
resistiriam
à insônia?

saber-se sempre o mesmo
sem noites, sem sonos,
sem fade out algum
entre o que foi
e o que será…

“a esperança é a última que morre…”
mas, antes dela
não morreremos todos nós?

Tão novo é o ano
quanto mais nos esquecemos
do que fomos,
e, principalmente,
do que não fomos.

Apagar uma a uma
as estrelas das trilhas
em que não nos arriscamos
até deixar
este estreito e reto caminho
artificialmente iluminado para
2008.

Isso.
Bebe champanhes, minha gente.
Bebe champanhes!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão
beber champanhes cidra cerezer.
Pudesse eu babar champanhes e esquecer
com a mesma verdade e prazer…

III.
Volto ao espelho,
esse insensível.
Tento, em vão,
me esquecer de algo pra ver se viro
o ano, se lhe passo uma rasteira,
se num lance mandinguento deixo
pra trás
definitivamente
o peso dos sóis e a abrasão das luas sobre meu dorso.

Metal pesado inflando-se de eclipses.

Mas resiste
em mim todos os anos
– numa siderurgia cirúrgica –
desde milnovecentos e tantos

(tempo fundindo-se ao coração-peito-nuca
feito ferro-gusa)

nada trago
de novo

de novo
nada trago

É que quando nasci,
um anjo torto
– e filhadaputa –
disse:

Vai, Jefferson,
vai ser um vinte-e-nove-de-fevereiro na vida!

IV.
Raia
no canto esquerdo da boca
desse que me olha do espelho
um risinho
qual uma esperança verde-musgo.

Talvez,
porque lhe tenha agradado
essa infame metáfora
do 29 de fevereiro…
Talvez,
porque ache
que este novo ano
– o de 2008 –
é bissexto.

Eu,
que vivo deste outro lado do espelho,
faria as contas,
para ter certeza,
primeiro…

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~ por jeffvasques em 23/12/2012.

2 Respostas to “Passarin avoando…”

  1. Excelentes poemas! Grande poeta!

  2. Salve Jeff!
    Antes de tudo, o antes: feliz 2013, que não é bissexto, mas talvez bissexual.
    Desejo a você uma boa viagem pelas entranhas desta terramericana.
    Perabens por este excelente poema!

    Forte abraço,

    J.

    p.s. tenho uma proposta para quando você retornar.

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