“”POEMA””


se
esconde
neste texto
de 3856
caracteres
o processo
exaustivo, demorado,
“instintivo” e técnico
que o produziu

se oculta
nestas 19 estrofes
pouco rimadas
uma imensurável
quantidade de trabalhos coletivos
e associados
historicamente acumulados
que garantiram a
“adequada” sobrevivência
deste que ora
escreve
– creditado como “poeta” –
e deste que ora

– debitado como “leitor” –
no início deste
vigésimos primeiro século
de nossa era.

E por isso,
razoavelmente “nutrido”,
precariamente “educado”,
soberbamente convencido,
escrevo este
“texto”
– educativo, bonitinho, performático –
que convenciona-se chamar
“poema”.

se esquece
neste “poema”
as dezenas de tentativas
infelizes, raivosas, amassadas,
virgens, maravilhosas,
frustradas
que permitiram
ao dito “poeta”
atingir esta mera
versão privilegiada
do que ele acredita
seja
sua confecção
definitiva e clara
e que logo aparecerá
brilhosa e fetichizada
aos olhos do incauto
– “hipócrita, meu irmão e meu igual” –
“leitor”.

[se exibe de forma quase-arrogante,
mas não escrachada,
referências literárias
como a acima citada de
Baudelaire
entre “aspas”]

“Leitor” mesmo
é o elemento menos visível
neste “texto”
e o mais essencial
nesta “obra”
e em grande medida
idealizado de forma
grotesca ou heróica
na cabeça solitária (e populosa)
dos mal ditos
“poetas”.
Isto fazem
para que
mesmo não havendo
quem os leia
– ao menos –
haja conversa.

mais ou menos
se apaga
na tessitura destas
palavras
uma enorme quantidade
de outras
absorvidas digeridas e apropriadas
a partir de outros tantos ditos
“poetas”
que permitiram ao
jefferson vasques
(que é o autor – em última instância –
deste trabalho
e não o “eu-lírico” que aqui se finge “crítico e revolucionário”)
estabelecer uma idéia vaga
do que possa ser
“poesia” e
constituir
a partir da cópia franca e vária
de seus preferidos
um certo corpo poético
a que muitos chamarão
“estilo”.
(neste poema, por exemplo,
há certamente retalhos de gullar,
drummond em adereços, uma certa
ironia de paulo paes,
e um ou outro dedo
de um el salvadorenho
poeta guerrilheiro,
roque dalton,
que morreu
escrevendo poemas
como quem arma
minas sem metáforas)

não se vê
tão claramente
nestas letrinhas
coladas
as construções sociais
próprias duma época determinada
[este poema foi iniciado em 23 de setembro de 2012
e finalizada hoje às 11h47]
que envolvem, influenciam,
seduzem, fodem e limitam o
horizonte “artístico” e compreensivo
do “artista” e o
“obrigam”
– mesmo com “toda” sua intenção revolucionária –
a ser um pastiche prostrado
ridículo, repetitivo e falso
do que seria
um “poeta”
em “nossa”
época.

tão pouco
se observa
entre estes pixels
na tela
a dita “vida”
de nobres “seres”
bem delimitados
como miseráveis tailandeses
e tailandesas
que “como” escravos
soldam monitores,
computadores, teclados,
que permitem a divulgação
“ampla” e instantânea
deste bem dito “poema”
mediante compra dessas mesmas mercadorias
que foram transportadas, propagandeadas e comercializadas
bem aí na sua esquina.

{tua respiração
acesa
tua língua em fúria
o lucro, a lycra, a lira
o consórcio da família inflável
a tristeza ejaculada à vista
nos peitos comprados à prazo
o groupon da alegria orgiástica
enfim
o esplendor da “vida”
sua carniça
a porra requentada
em que se frita o amor
na farinha
a vara comercial que te
silencia num prazer
de burocracias
a “”vida””
não se vê nestas linhas.
[a demência que ronda
o poeta e seus leitores
– e que está por vezes
a distância duma palavra –
apenas se mostra contida
como liberdade “poética” e expressiva
para maior segurança das
partes envolvidas]

também
não se detecta
assim
de primeira
neste já convencionado
“poema”
aquilo
que com halo místico
– e alguma histeria –
se chama
se declama
se reverencia por
“poesia”.
repara, leitor,
se tua respiração
está mais lenta
ou mais rápida
ou se ainda
quando digo
“fica de quatro”
algo aí dentro
se agita…
essa é a forma mais
concreta prática
de se apreender
“poesia!”

[no espaço invisível
entre uma e outra
palavra
se acumulam
espasmos, o asco,
pernas, cotovelos,
braços,
sangue coagulado,
nem gritos, fatos
entrecortados,
ranço, cancros, algo
como choro,
choque no saco,
pretos, viados, vadias,
comunistas, pobres,
coitados,
um ou outro
rosto
quando
claro…

…tudo isso
se aprisiona
nos “calabouços”
do “poema”
e torna
desesperadamente
necessária
a próxima
palavra…]

[sim, é “verdade”
não há mais
“censura” no “poema”…
mas, e essa “cesura”
íntima e histórica
que marca a pele
viva-morta
destas palavras
no meu
– e também no teu –
peito?]

igualmente
se esquiva
deste discurso
meta-producente
uma enorme varidade
de temas
necessários,
utópicos,
urgentes,
que o “poeta”
sorrateiramente
deixa de lado
tomando como centro de seu palco
única e exclusivamente
“isto”.
todo “poeta” é “culpado”
o verdito já está
dado: morreu de infarto
na segunda guerra
a “inocência”.

enfim,
este “poema”
poderia seguir ainda
por muito mais tempo
desvelando
o que não se vê nele
num primeiro
momento

mas como
este “poeta”
precisa “trabalhar”
em algo “útil”
para se sustentar
[posto
que a poesia
não serve a mesa]
por essa “feita”
o autor do “poema”
não pode mais
prosseguir

por isso
mesmo

entrega-se aqui
sua “chave interpretativa”
[que se esconde,
em geral,
à sete chaves]:

muitas “coisas”
se escondem
num poema

assim como
no pão
que “chega”
a “tua” mesa

muitas coisas
se “escondem”
num poema

assim como
na padaria
que amassa
teu trigo
na compra
e venda

muitas coisas
se escondem
num “poema”

assim como
na tristeza
que o trabalhar
do padeiro
fermenta

enfim, veja:

muitas coisas
se escondem
num poema

não
tema

“leia”

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~ por jeffvasques em 28/04/2013.

2 Respostas to ““”POEMA”””

  1. Li e reli o “Poema” . No todo foram 7712 caracteres e 38 estrofes. Creio que estes números são falsos, pois não alcançam a inominável cesura no peito do poeta. Portanto, li bem mais do que isso, e sei que outras leituras hão de levar à novas descobertas.
    Entre outras coisas, vi revelar-se o impasse e a agonia da poesia no mundo da mercadoria. Fez-me lembrar o Brecht no “Poesia do Exílio” : “Nos tempos sombrios se cantará também? Também se cantará sobre os tempos sombrios”.
    É maravilhoso, camarada!
    um abraço,
    maria

    • Obrigado, maria… quem faz o poema, em grande medida, sao seus leitores… e se teu olhar reconhece aqui valor, o poema existe e deixa de ser mais que letrinhas bonitinhas, um fetiche… e pode ser um canto de luta, um fuzil, um abraço solidário, ciência de ver e sentir… um grande abraço, maria!

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