Outras poesias de Juan Gelman


Poemas que traduzi de Juan Gelman (Argentina).

LIMITES

Quem disse alguma vez: até aqui a sede,
até aqui a água?

Quem disse alguma vez: até aqui o ar,
até aqui o fogo?

Quem disse alguma vez: até aqui o amor,
até aqui o ódio?

Quem disse alguma vez: até aqui o homem,
até aqui não?

Só a esperança tem os joelhos nítidos.
Sangram.

O JOGO EM QUE ANDAMOS

Se me permitissem escolher, eu escolheria
esta saúde de saber que estamos muito doentes,
esta felicidade de andarmos tão infelizes.
Se me permitissem escolher, eu escolheria
esta inocência de não ser um inocente,
esta pureza em que ando impuro.
Se me permitissem escolher, eu escolheria
este amor com que odeio,
esta esperança que come pãos desesperados.
Aqui se passa, senhores,
que me juegoaposto a morte.

Confianças

senta-se à mesa e escreve
“com este poema não tomarás o poder” diz
“com estes versos não farás a revolução” diz
“nem com milhares de versos farás a revolução” diz

e mais: esses versos não vão servir para que
peões professores lenhadores vivam melhor
comam melhor ou ele mesmo coma viva melhor
nem para apaixoná-la servirá

não ganhará dinheiro com eles
não entrará no cinema grátis com eles
não lhe darão roupa por eles
não conseguirá tabaco ou vinho por eles

nem papagaios nem cachecóis nem barcos
nem touros nem guarda-chuvas conseguirá por eles
se contar com eles a chuva o molhará
não alcançará perdão ou graça por eles

“com este poema não tomarás o poder” diz
“com estes versos não farás a revolução” diz
“nem com milhares de versos farás a revolução” diz
Senta-se à mesa e escreve

 

 

 

XCI

toda poesia é hostil ao capitalismo
pode tornar-se seca e dura mas não
porque seja pobre mas
para não contribuir com a riqueza oficial

pode ser sua maneira de protestar de
tornar-se magra já que há fome
amarela de sede e sofrida
de pura dor que há pode ser que

ao contrário abra os becos do delírio e as bestas
cantem atropelando-se vivas de
fúria de calor sem destino pode
ser que se negue a si mesma como outra

maneira de vencer a morte
assim como se chora nos velórios
poetas de hoje
poetas deste tempo

nos separaram do rebanho não sei que será de nós
conservadores comunistas apolíticos quando
aconteça o que vai acontecer mas
toda poesia é hostil ao capitalismo.

 

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~ por jeffvasques em 11/07/2013.

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