A vida irrita a arte

arte bia


[Pintura inspiradora da querida e forte Beatriz Tavares]

A VIDA IRRITA A ARTE

“Não sou artista, não faço arte, faço denúncia social.”
(João Zinclair – operário da fotografia. )

“Isso não é arte!”

dirão
– entre esbaforidos e consternados –
ao verem que teu poema
(ou tua pintura, ou tua música, tua dança, filme, foto ou cena)
age.

Ao verem que teu poema
luta
clama
denuncia
chora
consola
abraça
gospe
grita

Ao verem que teu poema
surta
explode
insulta
vomita
urra
e pira

Ao verem que teu poema
planeja
pensa
analisa
lembra
relembra
conspira

Ao verem que teu poema
lambe
morde
brinca
beija
ri e
fode

…que teu poema
mira.

Enfim,
sempre dirão
– entre esbaforidos e consternados –

“Isso não é arte!”

ao verem que teu poema
tem urgência
e utilidade.

Ao ouvir tal sentença,
poupa tua fala…
sorri com classe…
com toda tua Classe!

(sorri com a calma
com que respira
o metrô lotado
à tarde…)

[Veja,
eles pensam assim porque vivem
numa partezinha da vida
– numa minúscula classe –
onde não há problemas, grandes medos, dores, necessidades
e, portanto,
há tempo e “futuro” de sobra
pra se divertirem com essas palavras antiquadas
“posteridade” “eternidade” “arte”…]

Ao te dizerem
“Isso não é arte!”
…sorri, apenas, e diga:

“Tampouco isto é vida.”

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~ por jeffvasques em 25/01/2014.

5 Respostas to “A vida irrita a arte”

  1. Jeff, escreves sempre com muita consciência do papel da arte em um mundo decrépito como o nosso. Belíssimo e visceral!
    Sendo assim, gostaria de saber se posso declamar esse teu poema em um mini documentário sobre os impasses para a criação poética em nosso tempo, de que participarei em breve.
    abs.,
    maria rodrigues

    • Oxi, Maria, claaaro! Que honra! =) Você é um lindeza mesmo, companheira! Depois me diga que vídeo é este! Bejão!

    • Oi Jeff,
      O vídeo foi feito ontem à tarde. Tentei descobrir um meio de te contatar para acertarmos a leitura, infelizmente sem êxito. É uma pena, pois teu poema se encaixava tão perfeitamente no assunto, que dava a impressão de haver sido escrito para a ocasião. Quanto ao filme, trata-se de produção do grupo Cinefusão, para ser apresentada em uma feira cultural que a Cia. de Teatro Antropofágica realizará em breve. Nele, tento falar sobre como a poesia foi expulsa de nossa existência pelo modo de vida capitalista.
      De qualquer modo, obrigada pelas doces palavras e saiba que a honra seria toda nossa em declamá-lo, companheiro.
      bjs.,
      maria rodrigues

      • Puxa, Maria, que pena… mas olhe, então, já fica aqui de antemão liberado pra vc fazer qualquer coisa com o material que vc ache aqui neste blog! ;) é nosso! bejin!

  2. To sem palavras aqui! poema fortíssimo, Jeff! to encantada com a rebeldia das tuas palavras!

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