Nada extraordinário


NADA EXTRAORDINÁRIO
(Hugo Fernández Oviol, Venezuela, 1927-2006)

Eu não peço nada extraordinário:
a ninguém disse, por exemplo,
corte sua mão direita
e me entregue entre fatias
de pão branco.

Por acaso disse a alguém:
esqueça o nome de tua mãe
e cave uma imensa sepultura
no ventre de teu irmão?

Não. Eu não pedi nada extraordinário
nem um só pode me desmentir
quando digo:
eu não pedi a ninguém
que arranque os olhos
para que o sol lamba
a cicatriz do pranto.

E mais,
a ninguém pedi ainda:
amamenta a metade de tua sede
para que me presenteie
a metade de tua água.

Eu simplesmente disse:
Não quero que meu irmão
sofra fome,
não quero que roubem
seu trabalho,
não quero que seja morto
em terra estranha…

E, no entanto,
há gente enfurecida
disposta a me quebrar
o violão,
empenhada em dissecar
minha voz
sobre o lenho escuro
de uma encruzilhada,
decidida a converter
meus ossos
em farinha amarga
e carcerária…

Eu não os compreendo, amigo,
eu não peço nada extraordinário.

(Tradução de Jeff Vasques

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~ por jeffvasques em 31/01/2015.

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