Roque Dalton presente!


Roque-Dalton

Hoje, 14 de maio de 2015, Roque Dalton, um dos maiores-poetas lutadores da América, faria 80 anos, e aqui celebramos sua vida e sua poesia com a tradução de seu poema “Canto a nossa posição”. Roque foi assassinado há 40 anos atrás, no dia 10 de maio, por seus próprios companheiros de partido, motivados por sua postura não dogmática, profundamente questionadora e rebelde. Apesar de sua enorme influência na poesia e inspiração na luta revolucionária, continua um quase desconhecido no Brasil. Roque Dalton presente!!!

“Roque Dalton era um homem que aos quarenta anos dava a impressão de um menino de dezenove. Tinha algo de criança, condutas de criança, era travesso, brincalhão. Era difícil saber e se dar conta da força, da seriedade e da eficácia que se escondiam detrás desse rapaz.” (Júlio Cortázar)

“Ninguém menos solene que Roque Dalton, ninguém mais capaz de fazer rir até nas horas negras, mais disposto a aventurar-se de peito aberto contra o perigo…” (Eduardo Galeano)

Ouça o poema “À Roque” feito por Mario Benedetti: https://www.youtube.com/watch?v=7eCwVeZLXQc

CANTO A NOSSA POSIÇÃO
(Roque Dalton, El Salvador, 1935-1975)
a Otto René Castillo

Nos perguntam os poetas de pavorosos bigodes,
os acadêmicos empoeirados, amigos das aranhas,
os novos escritores assalariados,
os que suspiram para que a metafísica dos caracóis
lhes cubra a impudicícia:

Que fazeis vós de nossa poesia açucarada e virgem?
Que, do suspiro atroz e dos cisnes puríssimos?
Que, da rosa solitária, do abstrato vento?
Em que grupo os classificaremos?
Em que lugar os enquadraremos?

E não dizemos nada.

E não dizemos nada.
E não dizemos nada.

Porque ainda que não digamos nada,
os poetas do hoje estamos em um lugar exato:
estamos
no lugar em que nos obrigam
a estabelecer o grito.
(Ah, como dou risadas dos antigos poetas
obstinados em vendar seus olhos
e em untar de pétalas e de passarinhos famélicos
a corcunda da dor desconcertante
que se monta sólida
em cima do ombro positivo universal
desde o primeiro amanhecer e do primeiro vento,
e que se esqueceram do homem)
Estamos
no lugar exato que a noite precisa
para ascender à aurora.
(Muitos poetas inclinaram suas insônias antigas
sobre a fácil almofada azul da tristeza.
Construíram cidades e astros e universos
sobre a anatomia medíocre
de um ninho de manequins cristalinos
e exilaram a voz elementar
em planos altíssimos, desnudados
da raiz vital e da esperança.
Mas se esqueceram do homem)
Estamos
no lugar onde se gesta definitivamente
a alegria total que se atará à terra.
(Ai, poetas,
Como pudestes cantar vergonhosamente
as abstratas rosas e a lua brilhante
quando se caminhava paralelamente ao litoral da fome
e se sentia a alma sepultada
de baixo de um vulcão de chicotes e cárceres,
de patrões bêbados, de gangrenas
e de obscuros desperdícios de vida sem estrelas?
Gritastes alegria
sobre um amontoado de cadáveres,
cantastes a plumagem mimada
e as cidades cegas
à toda sorte de tísicas amantes;
mas se esqueceram do homem)
Estamos
no lugar onde começa o estaleiro
que vai inundar os mares com sorrisos lançados.

(Ai, poetas que esquecestes do homem,
que esquecestes
de como doem as meias rasgadas,
que esquecestes
do final dos meses dos inquilinos,
que esquecestes
do proletário que ficou na esquina
com um bocejo eterno inacabado,
cheio de balas e sem sangue,
cheio de formigas e definitivamente sem pão,
que esquecestes
das crianças doentes sem brinquedos,
que esquecestes
do modo de tragar das mais negras minas,
que esquecestes
da noite de estréia das prostitutas,
que esquecestes dos choferes de taxi vertiginosos,
dos ferroviários
dos operários dos andaimes,
das repressões assassinantes
contra o que pede pão
para que não se morram de tédio
os dentes na boca,
que esquecestes
de todos os escravos do mundo,
ai, poetas,
como me doem
vossas estaturas inúteis!)

Estamos no lugar em que se encontra o homem.
Estamos no lugar em que se assassina o homem,
no lugar
em que os poços mais negros se submergem no homem.
Estamos com o homem
porque antes muitíssimo antes que poetas
somos homens.
Estamos com o povo,
porque antes, muitíssimo antes que maritacas alimentadas
somos povo.
Estamos com uma rosa vermelha entre as mãos
arrancada do peito para oferecê-la ao homem!
Estamos com uma rosa vermelha entre as mãos
arrancada do peito para oferecê-la ao homem!
Estamos com uma rosa vermelha entre as mãos
arrancada do peito para oferecê-la ao Povo!
Estamos com uma rosa vermelha entre as mãos
arrancada do peito para oferecê-la ao Povo!

(tradução de Jeff Vasques | para mais poesias de Dalton: https://eupassarin.wordpress.com/tag/roque-dalton/)

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~ por jeffvasques em 14/05/2015.

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