José Angel Buesa (Cuba)



Bom, tava procurando poetas novos e topei com o Buesa… vi que era cubano e pensei “hummm… pode ser coisa boa”… já associando sua poesia com o processo revolucionário e tudo mais. Nada disso. Angel foi daqueles que fugiu de Cuba depois da revolução. (Engraçado que nos textos que encontrei apenas se diz “teve que deixar Cuba”, mas não explicam por quê…). Sua obra foi meio que “banida” de Cuba, tida como mau exemplo (tanto pela qualidade – que realmente não é estupenda – como pelos riscos de “contaminação ideológica”). Mas, recentemente, em 1997, a editorial Letras Cubanas reeditou uma antologia de Buesa que é enormemente procurada pelos cubanos, para desespero da “vanguarda literária revolucionária”.

Apesar disso tudo, fui ler, porque poesia é poesia. Buesa foi muito famoso em sua época em Cuba: seu livro “Oásis” é um dos mais lidos na américa latina só perdendo pro “20 poemas de amor e uma canção desesperada” do Neruda. Era conhecido como “poeta enamorado”, “poeta dos enamorados”, porque só escrevia sobre amor, paixão e seus apêndices… sentimentalóide, simples, e, por isso mesmo, muito popular e um tanto desprezado pela crítica. A sua poesia é bobinha, de fato, um tanto inocente, mas tem um poder encantatório, pela própria simplicidade como aborda os temas e também pela gostosa montagem sonora, que me fizeram gostar de vários de seus poemas. Claro, não é algo assim “nossa, você tem que ler isso”… mas ele consegue carregar um pouco da singeleza do Bandeira numa abordagem tão popular e direta dos assuntos do coração que em vários momentos imaginei seus poemas como canções, como sambinhas, com versos do tipo “segundo dizem você já tem outro amante”. Feito e dito: muitos poemas seus foram musicados!

Bom, apesar dos pesares, seguem algumas tra(b)duções que fiz de Buesa… não compartilho com a forma singela e simples com que observar o amor, mas me cativa esse seu jeito ingênuo… tem lá sua beleza (meio folclórica, de uma abordagem tão sentimental e simples que semelha um bibelôzinho de geladeira, com corações e setas… algo entre lupcínio rodrigues e wando).

Ah, me lembrei, em boa hora, que o Roque Dalton (o poeta guerrilheiro) tem um poema em que cita o Buesa (criticando-o indiretamente)… já tra(b)duzi esse poema aqui (aliás, percebi hoje, alegre, que já traduzi quase todo o Dalton!). Coloco primeiro esse poema do Dalton como pré-antídoto para os poemas do Buesa… ahahah. (quem quiser pode pulá-lo e deixar para ler no final :)

Poema de Roque Dalton em que cita Buesa:

A cultura e o louco amor (Roque Dalton)

Eu te disse com toda seriedade
“que grande caminho andei
para chegar até aqui”
e você me disse que isso parecia José Angel Buesa
e então me ri todo
e te disse que os versos eram de Nicolas Guillén**
e você (que acabara de sair de tua aula de francês)
me contestou que então era Nicolas Guillén
quem se parecia a José Angel Buesa
eu te disse que se desculpasse imediatamente com
Nicolas Guillén e comigo
e então me disse
que o verdadeiro culpado era eu
por chegar ao José Angel Buesa essencial
através de Nicolas Guillén
então eu te disse que a verdadeira culpada era você
por ser tão puta
e aí foi que você pediu perdão
que estava equivocada
não é que você se parece ao José Angel Buesa
você é um José Angel Buesa.

Então eu saquei a pistola…

** Nicolas Guillén foi um poeta cubano revolucionário. Você pode encontrar tra(b)duções minhas dele aqui mesmo.

POEMA DA RENÚNCIA (José A. Buesa)

Passarás por minha vida sem saber que passaste.
Passarás em silêncio por meu amor, e ao passar,
fingirei um sorriso, como um doce contraste
da dor de querer-te… e jamais o saberá.

Sonharei com o nácar virginal de tua fronte;
sonharei com teus olhos de esmeraldas de mar;
sonharei com teus lábios desesperadamente;
sonharei com teus beijos… e jamais o saberá.

Quiçá passes com outro que te diga ao ouvido
essas frases que ninguém como eu te dirá;
e, afogando para sempre meu amor inadvertido,
te amarei mais que nunca… e jamais o saberá.

Eu te amarei em silêncio, como algo inacessível,
como um sonho que nunca lograrei realizar;
e o distante perfume de meu amor impossível
roçará teus cabelos … e jamais o saberá.

E se um dia uma lágrima denuncia meu tormento,
— o tormento infinito que te devo ocultar —
te direi sorridente: “Não é nada … foi o vento”.
Enxugarei a lágrima … e jamais o saberá!

CANÇÃO DO AMOR DISTANTE (José A. Buesa)

Ela não foi, dentre todas, a mais bela,
mas me deu o amor mais fundo e longo.
Outras me amaram mais; e, no entanto,
a nenhuma desejei como a ela.

Talvez porque a amei de longe,
como a uma estrela desde minha janela…
e a estrela que brilha mais distante
nos parece que tem mais reflexos.

Tive seu amor como uma coisa distante
como uma praia cada vez mais solitária,
que unicamente guarda da onda
uma umidade de sal sobre a areia.

Ela esteve em meus braços sem ser minha,
como a água no cântaro sedento,
como um perfume que se foi no vento
e que volta no vento todavia.

Me penetrou sua sede insatisfeita
como um arado sobre a planície,
abrindo em seu fugaz desprendimento
a esperança feliz da colheita.

Ela foi o próximo no longínquo,
mas preechia todo o vazio,
como o vento nas velas do navio,
como a luz no espelho quebrado.

Por isso ainda penso na mulher, aquela,
a que me deu o amor mais fundo e longo…
Nunca foi minha. Não era a mais bela.
Outras me amaram mais… E, no entanto,
a nenhuma desejei como a ela.

POEMA DA CULPA (José A. Buesa)

Eu a amei, e era de outro, que também a queria.
Perdoai a ela, Senhor, porque a culpa é minha.
Depois de haver beijado seus cabelos de trigo,
nada importa à culpa, pois não importa o castigo.

Foi um pecado desejá-la, Senhor, e, no entanto
meus lábios estão doces por esse amor amargo.
Ela foi como uma água calada que corria…
Se é culpa ter sede, toda a culpa é minha.

Perdoai a ela, Senhor, tu que destes a ela
sua frescura de chuva e esplendor de estrela.
Sua alma era transparente como um vaso vazio:
eu o enchi de amor. Todo o pecado é meu.

Mas, como não amá-la, se tu fizestes que fosse
pertubadora e fragante como a primavera?
Como não havê-la amado, se era como o orvalho
sobre a erva seca e ávida da estiagem?

Tratarei de rechaçá-la, Senhor, inutilmente,
como um sulco que tenta rechaçar a semente.
Era de outro. Era de outro que não a merecia,
e por isso, em seus braços, seguia sendo minha.

Era de outro, Senhor, mas há coisas sem dono:
as rosas e os rios, e o amor e o sonho.
E ela me deu seu amor como se dá uma rosa
como quem dá tudo, dando tão pouca coisa…

Uma embriaguês estranha nos venceu pouco a pouco:
ela não foi culpada, Senhor… nem eu tampouco
A culpa é toda tua, porque a fizestes bela
e me destes os olhos para mirá-la.

Sim. Nossa culpa é tua, se é uma culpa amar
e se é culpado o rio quando corre até o mar.
É tão bela, Senhor, e é tão suave, e tão clara,
que seria pecado maior se não a amasse.

E por isso, perdoa-me, Senhor, porque é tão bela,
que tu, que fizestes a água, e a flor, e a estrela,
tu, que ouves o lamento desta dor sem nome,
tu tambem a amarias, se pudesses ser homem.

BALADA DO MAU AMOR (José A. Buesa)

Que lástima, garota,
que não te possa amar.
Eu sou uma árvore seca que só espera o machado,
e você um arroio alegre que sonha com o mar.

Eu joguei minha rede no rio…
Rompeu-se a rede…
Não junte teu vaso cheio ao meu vazio,
pois se bebo em teu vaso vou sentir mais sede.

Beija-se pelo beijo,
por amar o amor…
Esse é teu amor de agora, mas o amor não é esse,
pois só nasce o fruto quando morre a flor.

Amar é tão simples,
tão sem saber por quê…
Mas assim como perde a moeda seu brilho,
a alma, pouco a pouco, vai perdendo sua fé.

Que lástima, garota,
que não te possa amar!
Há velas que se rompem à primera rajada,
e há tantas velas rasgadas no fundo do mar!

Mas ainda que toda ferida
deixe uma cicatriz,
não importa a folha seca de uma rama florida
se a dor dessa folha não chega à raiz.

A vida, chama ou neve,
é um moinho que
vai moendo em seus braços o vento que o move,
triturando as recordações do que já houve…

Já o meu foi meu,
e agora vou ao azar…
Se uma rosa é mais bela molhada de orvalho,
o golpe da chuva a pode desfolhar…

Tive um amor covarde.
O tive e o perdi…
Para teu amor prematuro já é demasiado tarde,
porque na minha alma anoitece o que amanhece em ti.

O vento enche a vela, mas à esfiapa,
e a água dos rios se faz amarga no mar…
Que lástima, garota,
que não te possa amar!

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~ por jeffvasques em 26/07/2010.

2 Respostas to “José Angel Buesa (Cuba)”

  1. Simplesmente Perfeito!

  2. Excelentes poemas, um verdadeiro gênio. Tuda a glória para ele!

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