Os sem-sono

•18/01/2017 • Deixe um comentário

OS SEM-SONO

mente insana,
corpo insone

que sono
comporta
sonho tão
grande?

mente insone,
corpo insano

um sonho
de séculos
não há sono
que sane

“mens sana in
corpore sano”

somos
sina e insônia
dos sãos,
que não sonham.

na hora de nossa hora

•17/01/2017 • 1 Comentário

NA HORA DE NOSSA HORA

silenciosa
e imprevisível
sempre vem
sem avisar

mal se ouvem
seus passos e
em nossa boca
seu lábio
jaz

quem saberá
sua hora?

ao nascer da aurora?
ao explodir do orgasmo?
sozinho entre sol e ondas?
no instante mesmo do
parto?

certo, apenas,
é que virá

e te insuflará o peito
e queimará teus olhos
e te consumirá por dentro
em fomes e fogos

tão negada
tão temida
grã senhora do nosso assombro

a Vida.

mal abro

•17/01/2017 • Deixe um comentário

pavao-cauda-dourada-1mal abro
os olhos

a morte
me diz

“não me esqueça…”

sonolento
e irritado

pego a caneta
e cravo

às suas costas
– qual flor ou bandeira –
este poema.

já bem acordado
saboreio o café

e o fato

de que
meu pavão cravado
de insolências

espreita.

Soneto popular

•17/01/2017 • 2 Comentários

age20150412425

SONETO POPULAR

o povo é besta, o povo é bravo
o povo é peso, o povo é lastro
o povo é a vela, o povo é o leme
povo coxinha, revolucionário

o povo é urna, o povo é rua
tão ignorante, o povo é sábio
não tem memória, é a própria história
o povo é inocente, o povo é safo

povo é submisso, insubordinado
sempre em atraso, o sol do futuro
cada um por si, o povo é uno

o povo é porva, pavio e pólvora
oh, zé povinho!, oh, povo magno!
o povo é mito, o povo é fato

Magia

•17/01/2017 • 1 Comentário

MAGIA

nada
nesta mão.

nada
nesta outra.

digo as palavras
certas, como:

“por qual inútil janela as nuvens esquecem tua criança?”

e voilá!

eis um poema

em tua
boca.

Quadras ao gosto impopular XXIII, XXIV

•17/01/2017 • Deixe um comentário

QUADRAS AO GOSTO IMPOPULAR XXIII

o amor é um império
– tirânico e unânime –
não suporta hereges
ai de quem não o ame.

 

QUADRAS AO GOSTO IMPOPULAR XXIV

O amor é monogâmico
e heteronormativo.
Machista, cis, romântico,
branco, magro, coxinha.

Black Friday

•28/11/2016 • Deixe um comentário

BLACK FRIDAY
(em homenagem a Fidel Castro que morreu na sexta-feira 25 de novembro – recomendo ver o vídeo antes de ler o poema)

estão lado a lado e são muitos…
e têm raiva, gritam, correm, urram,
a energia transborda, explode uma disposição
irracional pra luta…

mas não estão juntos.

estão, ali, ombro a ombro,
são uma onda de vontades
e sonhos…

solitários.

são muitos,
mas não são um todo…
fragmentos, estilhaços
ricocheteando em desespero..

tantos e tão
ínfimos,
assim,
isolados
na capsula
que lhes foi conferida,

são ilhas

poderiam tomar toda a loja
poderiam tomar todas as fábricas
eram muitos e estavam – ali – ladoalado
em raiva
vida querendo mais vida

mas algo tapa
suas vistas

se chocam, se socam, mordem, batem, gritam
numa busca desumanamente humana
por algo de vida
com desconto
que lhes concedem
– rindo –
uma vez
ao ano.

II.
não eram muitos
mas eram unos
eram juntos uma imensidão
vontade coletiva
e forjaram um só corpo
de braços nas serras e pés
nas esquinas
e depuseram um ditador
e tomaram a ilha
e enfrentaram o império
e se fizeram pontes
e se lançaram istmos
e nos davam o braço,
a mão, o canto
nos levantavam gritando
“é possível, ainda!”
e um sorriso ecoando noutro
ria-se do poder que
sempre fomos
e logo éramos
uma internacional
de sonhos
saqueando de volta
a vida,
sem descontos,
a integral,
merecida.

III.
Morreu Fidel
na black friday.

Imenso,
ele se riria,
certamente,
com essa
ironia.

Cuba segue
um continente
dentre um mar
de ilhas.