Black Friday

•28/11/2016 • Deixe um comentário

BLACK FRIDAY
(em homenagem a Fidel Castro que morreu na sexta-feira 25 de novembro – recomendo ver o vídeo antes de ler o poema)

estão lado a lado e são muitos…
e têm raiva, gritam, correm, urram,
a energia transborda, explode uma disposição
irracional pra luta…

mas não estão juntos.

estão, ali, ombro a ombro,
são uma onda de vontades
e sonhos…

solitários.

são muitos,
mas não são um todo…
fragmentos, estilhaços
ricocheteando em desespero..

tantos e tão
ínfimos,
assim,
isolados
na capsula
que lhes foi conferida,

são ilhas

poderiam tomar toda a loja
poderiam tomar todas as fábricas
eram muitos e estavam – ali – ladoalado
em raiva
vida querendo mais vida

mas algo tapa
suas vistas

se chocam, se socam, mordem, batem, gritam
numa busca desumanamente humana
por algo de vida
com desconto
que lhes concedem
– rindo –
uma vez
ao ano.

II.
não eram muitos
mas eram unos
eram juntos uma imensidão
vontade coletiva
e forjaram um só corpo
de braços nas serras e pés
nas esquinas
e depuseram um ditador
e tomaram a ilha
e enfrentaram o império
e se fizeram pontes
e se lançaram istmos
e nos davam o braço,
a mão, o canto
nos levantavam gritando
“é possível, ainda!”
e um sorriso ecoando noutro
ria-se do poder que
sempre fomos
e logo éramos
uma internacional
de sonhos
saqueando de volta
a vida,
sem descontos,
a integral,
merecida.

III.
Morreu Fidel
na black friday.

Imenso,
ele se riria,
certamente,
com essa
ironia.

Cuba segue
um continente
dentre um mar
de ilhas.

Eleição

•05/10/2016 • Deixe um comentário

com
santinhos nas
mãos

e
olhares de
votos

seguimos
em procissão

kyrie eleison!
kyrie eleison

Os policiais e os guardas

•05/09/2016 • Deixe um comentário

policiais e guardas roque daltonOS POLICIAIS E OS GUARDAS
(poeta guerrilheiro Roque Dalton, El Salvador, 1935-1975)

Sempre viram o povo
como um montão de costas que corriam pra longe
como um campo para deixar cair com ódio os cassetetes.

Sempre viram o povo com o olho de afinar a pontaria
e e entre o povo e o olho
a mira da pistola ou a do fuzil.

(Um dia eles também foram povo
mas com a desculpa da fome e do desemprego
aceitaram uma arma
um cassetete um soldo mensal
para defender os que causam fome e aos que desempregam).

Sempre viram o povo aguentando
suando
vociferando
levantando cartazes
levantando os punhos
e também dizendo-lhes:
“Cachorros filhos da puta o dia de vocês vai chegar!”

(E cada dia que passava
eles acreditavam ter feito um grande negócio
ao trair o povo do qual nasceram:
“O povo é um monte de fracos e sem vergonhas -pensavam-
que bem fizemos ao passarmos para o lado dos vivos e dos fortes”).

E então era só apertar o gatilho
e as balas iam da margem dos policiais e guardas
contra a margem do povo
assim iam sempre
de lá pra cá
e o povo caía sangrando
semana após semana ano após ano
quebrados seus ossos
chorando pelos olhos de mulheres e crianças
fugia espantado
deixava de ser povo para ser tropel vermelho
desaparecia na forma como cada um se salvava
para sua casa e logo nada mais
só os bombeiros lavando o sangue das ruas.

(Os coronéis acabavam de os convencer:
“É isso homens -lhes diziam-
duro e na cabeça com os civis
fogo com o populacho
vocês também são pilares uniformizados da Nação
sacerdotes de primeira linha
no culto à bandeira ao escudo ao hino aos próceres
à democracia representativa ao partido oficial e ao mundo livre
cujos sacrifícios não esquecerá a gente decente deste país
ainda que hoje não possamos subir vosso soldo
como é nosso desejo”).

Sempre viram o povo
franzido no quarto das torturas
pendurado
espancado
fraturado
inchado
asfixiado
violado
furado com agulhas nos ouvidos e nos olhos
eletrocutado
afogado em urina e merda
cuspido
arrastado
soltando fumaça em seus últimos restos
no inferno da cal viva.

(Quando resultou morto o décimo Guarda Nacional. Morto pelo povo
e o quinto rato bem esmagado pela guerrilha urbana
os ratos e os Guardas Nacionais começaram a pensar
sobre tudo até porque os coronéis já mudavam de tom
e a cada fracasso jogavam a culpa
aos “elementos da tropa tão moles que temos”).

O fato é que os policiais e os guardas
sempre viram o povo de lá pra cá
e as balas só caminhavam de lá pra cá.

Que pensem muito…
que eles mesmos decidam se é muito tarde
pra buscar a margem do povo
e disparar dali
ombro a ombro
junto conosco.

Que pensem muito…
mas, enquanto isso,
que não se mostrem surpreendidos
nem ponham essa cara de ofendidos,
hoje, quando algumas balas
começam a chegar até eles vindas deste lado
de onde segue o mesmo povo de sempre
só que a esta altura já estufa o peito
e traz cada vez mais fuzis.

(tradução de Jeff Vasques | mais poesias: facebook/eupassarin)

[foto de origem desconhecida]

GOLPE DE MESTRE

•01/09/2016 • 2 Comentários

GOLPE DE MESTRE

“O que é o roubo de um banco comparado à fundação de um banco?” (Brecht)

O que é

um golpe de Estado
que nos leva
– revoltados! –
às ruas

se comparado ao

golpe do Estado
que nos leva
– esperançosos! –
às urnas?

silogismo e machismo

•30/06/2016 • Deixe um comentário

SILOGISMO E MACHISMO

Todo homem é mortal (potencialmente).
Sócrates é homem (desconstruído, de esquerda, legal).
Sócrates (ainda) é (potencialmente) mortal.

A ÚNICA COISA A FAZER É TOCAR UM TANGO ARGENTINO

•18/06/2016 • Deixe um comentário

A ÚNICA COISA A FAZER É TOCAR UM TANGO ARGENTINO

I.
Entre
o que fora
e sonha

– como areia
entre os
dedos –

escorre
tua vida.

II.
E
se tenta
guardar

– como algo
que fora
ou sonha –

cada
grãozin
dessa coisa
viva…

escorre
– entre seus dedos tensos –
ainda mais
a vida.

III.
Entre
o que fora
e sonha

– como areia
entre os
dedos –

escorra
a vida.

eterno refluxo

•25/04/2016 • Deixe um comentário

ETERNO REFLUXO

nos domingos

a morte chega
sem susto
sem drama
sem sedução

não desafia
não cospe à cara
não promete aquele
abraço
abrigo
não ameaça nem oferece
a autopiedade de
morto antes de morto
maldito

só diz à porta
“tá pronto…
o almoço”

e só lá
pro segundo prato
você estranha

pensa “caramba”
e que deveria
chorar…
um pouco…

(alguém voltando
à boca, o macarrão
à bolonhesa,uma
lembrança)

mas ela
adianta a
sobremesa

e você
– já criança –
vai mergulhando a colher
de pé no iogurte

de pé!
na esperança

do domingo
nunca acabar.