só hoje

•19/02/2015 • 1 comentário



hoje,
nesta
terça-gorda
de carnaval,
me permiti
te chorar,
amigo

só hoje,
em meio à turba
em meio à chuva
anônimo e
invisível

tão junto
e tão sozinho

só hoje
me permiti,
amigo,
te chorar

(foram dois meses
resistindo)

e voltei
pra casa
como um carro
trágico-alegórico

imponente
belo
ridículo

essa alegoria clichê
de chuvas e lágrimas
– e um trompete ao fundo
que eu imaginava você tocando –

[e aí eu ria, chorando, do ridículo
que você acharia da cena…]

só hoje
em meio à fantasia
da alegria coletiva
em meio à entrega
inevitável
à vida
em meio à tantos
você, ali,
possíveis

pude aceitar

– e registrar neste poema
ruim e bêbado
(que você, ao ler,
faria lindo) –

o inaceitável
de tua partida.

o que é o que é

•15/02/2015 • Deixe um comentário


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O QUE É
O QUE É

que
segredo

é
esse

que nos
devora

que nos
decifra…

que
não há
quem ouça

e tampouco
quem

– boca a boca –

não
diga

?

Visibilidade Trans

•02/02/2015 • Deixe um comentário


Para celebar o dia 29 de janeiro, dia da visibilidade transgênero, fiz esta arte… a poesia é minha, o desenho é de um cartaz argentino, mas não descobri o autor, infelizmente…

cartaz evento3

Nada extraordinário

•31/01/2015 • Deixe um comentário


NADA EXTRAORDINÁRIO
(Hugo Fernández Oviol, Venezuela, 1927-2006)

Eu não peço nada extraordinário:
a ninguém disse, por exemplo,
corte sua mão direita
e me entregue entre fatias
de pão branco.

Por acaso disse a alguém:
esqueça o nome de tua mãe
e cave uma imensa sepultura
no ventre de teu irmão?

Não. Eu não pedi nada extraordinário
nem um só pode me desmentir
quando digo:
eu não pedi a ninguém
que arranque os olhos
para que o sol lamba
a cicatriz do pranto.

E mais,
a ninguém pedi ainda:
amamenta a metade de tua sede
para que me presenteie
a metade de tua água.

Eu simplesmente disse:
Não quero que meu irmão
sofra fome,
não quero que roubem
seu trabalho,
não quero que seja morto
em terra estranha…

E, no entanto,
há gente enfurecida
disposta a me quebrar
o violão,
empenhada em dissecar
minha voz
sobre o lenho escuro
de uma encruzilhada,
decidida a converter
meus ossos
em farinha amarga
e carcerária…

Eu não os compreendo, amigo,
eu não peço nada extraordinário.

(Tradução de Jeff Vasques

Manifesto

•24/01/2015 • 2 Comentários


Morreu ontem o escritor comunista, Pedro Lemebel, lutador ferrenho contra todas as opressões, em especial, a homofobia, ícone da contra-cultura chilena. Na foto, aparece com a foice e o martelo pintadas no rosto… foi assim que, num encontro clandestino de partidos de esquerda, durante a ditadura de Pinochet, de salto alto, leu o poema abaixo!

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MANIFESTO
(FALO POR MINHA DIFERENÇA)

Pedro Lemebel (Chile, 1952-2014)

Não sou Pasolini pedindo explicações.
Não sou Ginsberg expulso de Cuba.
Não sou uma bicha disfarçada de poeta.
Não preciso de disfarces
aqui está minha cara
falo por minha diferença.
Defendo o que sou
e não sou tão esquisito.
Me repugna a injustiça
e suspeito dessa dança democrática.
Mas não me fale do proletariado
porque ser pobre e bicha é pior.
Há que ser ácido para suportar.
É ter que dar voltas nos machinhos da esquina
é um pai que te odeia
porque o filho desmunheca
é ter uma mãe de mãos marcadas pelo cloro
envelhecidas de limpeza
te ninando como doente
por maus modos
por má sorte
como a ditadura
pior que a ditadura
porque a ditadura passa
e vem a democracia
e logo depois o socialismo.
E então?
Que farão com nossos companheiros?
Irão nos amarrar às tranças em fardos
com destino a um sidário[2] cubano?
Irão nos enfiar em algum trem para parte alguma
como no barco do general Ibáñez [3]
onde aprendemos a nadar
mas ninguém chegou até à costa.
Por isso Valparaíso apagou suas luzes vermelhas.
Por isso as casas de caramba[4]
brindaram com uma lágrima negra
os carneiros comidos pelos caranguejos.
Este ano que a Comissão de Direitos Humanos
não lembra.
Por isso companheiro te pergunto
existe ainda o trem siberiano
da propaganda reacionária?
Esse trem que passa por suas pupilas
quando minha voz fala demasiado doce?
E você?
Que fará com essa lembrança de meninos
se tocando e outras coisas
nas férias de Cartagena?
O futuro será em preto e branco?
O tempo será noite e dia de trabalho
sem ambiguidades?
Não haverá uma bichona em alguma esquina
desequilibrando o futuro de seu novo homem?
Vão nos deixar bordar pássaros
nas bandeiras da pátria livre?
O fuzil eu deixo a você
que tem o sangue frio.
E não é medo.
O medo foi indo embora de mim
no bloquear de facadas
nos inferninhos sexuais onde andei.
E não se sinta agredido
se te falo dessas coisas
e te olho o volume.
Não sou hipócrita
acaso os peitos de uma mulher
não te fazem baixar a vista?
Você não acredita
que sozinhos na serra
algo se passaria entre nós?
Embora depois me odiasse
por corromper sua moral revolucionária.
Tem medo que se homessexualize a vida?
E não falo de te enfiar e tirar
e tirar e te enfiar somente
falo de ternura companheiro.
Você não sabe
como custa encontrar o amor
nestas condições.
Você não sabe
o que é carregar essa lepra.
As pessoas ficam à distância.
As pessoas compreendem e dizem:
é viado mas escreve bem
é viado mas é um bom amigo
super-boa-onda[5].
Eu não sou boa-onda.
Eu aceito o mundo
sem lhe pedir essa boa-onda.
Mas ainda assim riem.
Tenho cicatrizes de risos nas costas.
Você acredita que eu penso com o pau
E que à primeira parrillada[6] da CNI[7]
eu ia soltar tudo.
Não sabe que a hombridade
nunca a aprendi nos quartéis.
Minha hombridade me ensinou a noite
atrás de um poste.
Essa hombridade de que você se gaba
te enfiaram em um regimento
um milico assassino
desses que ainda estão no poder.
Minha hombridade não recebi do partido
porque me rechaçaram com risadinhas
muitas vezes.
Minha hombridade aprendi militando
na dureza desses anos
e riram da minha voz afeminada
gritando: vai cair, vai cair.
E embora você grite como homem
não conseguiu que caísse.
Minha hombridade foi amordaçada.
Não fui ao estádio
e me peguei nas porradas pelo Colo Colo[7].
O futebol é outra homossexualidade encoberta
como o boxe, a política e o vinho.
Minha hombridade foi morder as provocações
engolir a raiva para não matar todo mundo.
Minha hombridade é me aceitar diferente
ser covarde é muito mais duro.
Eu não dou a outra face
dou o cu companheiro
e esta é a minha vingança.
Minha hombridade espera paciente
que os machos fiquem velhos
porque a esta altura do campeonato
a esquerda entrelaça seu cu flácido
no parlamento.
Minha hombridade foi difícil
por isso não subo nesse trem
sem saber aonde vai.
Eu não vou mudar pelo marxismo
que me rechaçou tantas vezes.
Não preciso mudar
sou mais subversivo que vocês.
Não vou mudar somente
porque os pobres porque os ricos…
a outro cachorro com esse osso.
Tampouco porque o capitalismo é injusto
em Nova Iorque as bichas se beijam na rua
mas esta parte deixo para você
que tanto te interessa.
Que a revolução não se apodreça completamente.
A vocês entrego esta mensagem
e não é por mim
eu estou velho
e sua utopia é para as gerações futuras.
Há tantas crianças que vão nascer com a asinha quebrada
e eu quero que voem companheiro.
Que sua revolução
dê a eles um pedaço de céu vermelho
para que possam voar.
_________________

[1] Este texto foi lido como intervenção em um ato político da esquerda em setembro de 1986, em Santiago, Chile. Leia o poema original aqui: http://lemebel.blogspot.com.br/…/manifiesto-hablo-por-mi-di…

[2] Apesar de Sidario ser um nome próprio muito comum no Chile, o autor o usa como substantivo para denominar clínicas para tratamento de soropositivos. Cf.: livro de crônicas de Pedro Lemebel chamado “Loco afán: crónicas de sidariorio”, com textos que tratam, sobretudo, da marginalização de travestis e AIDS.

[3] Carlos Ibáñez del Campo reprimiu duramente os homossexuais sob seu governo… era comum soltar opositores de barco, com peso amarrado em seus pés, em alto mar

[4] Casas onde se cantam tonadillas. O termo alude à cantora tonadillera do século XVIII Maria Antónia Fernández, cujo apelido era Caramba.

[5] No original “buena-onda”, um trocadilho: alegre/ fresco.

[6] Prato típico chileno com diversos tipos de carne e frutos do mar, naturalmente no poema se trata de um trocadilho.

[7] CNI – Central Nacional de Informaciones de Chile – foi um organismo de inteligência do regime militar chileno. Criada em 1977, foi responsável por inúmeros casos de infiltração política, assassinatos, sequestros e tortura aos opositores do regime, além de estar relacionada ao roubo de banco e o tráfico de drogas e armas. Foi dissolvida em 1990, pouco antes do retorno da democracia. Muitos de seus agentes então foram realocados em outros cargos públicos, inclusive de segurança.

[8] Time de futebol chileno.

_________________________________________

(Tradução de Jeff Vasques, tendo por base tradução e notas de Nina Rizzi)

O punhal do orvalho

•22/01/2015 • Deixe um comentário


O PUNHAL DO ORVALHO
(Thiago de Mello)

Não sei mais ser sozinho e, todavia,
como de pão de solidão careço.
É dentro dela que consigo ver,
como no escuro um vôo de andorinha,
o que ainda é mesmo amor na vida minha.
É dentro do seu âmago molhado,
onde o silêncio é punhal de orvalho,
que vejo o rosto que eu não quero ver.
Na solidão me aprendo.
E me despeço
do que já fiz, para começar de novo
o que fazer quis tanto, e que não soube.

Didaticamente

•21/01/2015 • Deixe um comentário


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Um poema meu, o “tempoaotempo”, agora faz parte do livro didático Atos 9, da FTD. =)

a versão original abaixo:

tempoaotempo divulg

 
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