Atahualpa Yupanqui (Argentina) I



Em língua quechua: Ata: vem; Ku: de longe; Alpa: terra; Yupanqui: que vai contar. Logo, “Aquele que vem de longe para contar algo”… e vinha de longe mesmo! Atahualpa Yupanqui era o pseudônimo que Héctor Roberto Chavero se deu em sua adolescência quando andava diariamente 15 quilômetros para ter aulas com seu mestre de violão. Era também uma homenagem aos dois últimpos imperadores incas: Atahualpa e Tupac Yupanc.

Atahualpa nasceu no Campo de la Cruz, Partido de Pergamino, uma pequena localidade da região norte da Província de Buenos Aires. A data de seu nascimento está registrada no dia 31 de janeiro de 1908; filho de uma típica família do interior argentino: seu pai é crioulo e sua mãe vasco-espanhola. É dessa vida própria dos pampas que Atahualpa vai retirar toda sua musicalidade e poesia inicial:

“Os dias de minha infância transcorriam de assombro em assombro, de revelação em revelação. Nasci em um meio rural e cresci frente a um horizonte de balidos e relinchos. Era um mundo de sons doces e bárbaros a uma só vez. (…) Galopam-me no sangue trezentos anos de América, desde que Don Diego Abad Martin Chavero chegou para abater quebrachos e afarrobeiras e fazer portas e colunas para igrejas e capelas. Pelo lado materno venho de Regino Haram, de Guipuzcoa.”. (“El canto del viento”, Atahualpa)

É difícil dimensionar a profundidade da influência de Atahualpa na música e cultura latino-americana deste século. Profundamente conectado à vida campesina dos pampas argentinos mas também influenciado pelas tribos e comunidades pobres de diversos países por onde peregrinou, Yupanqui funcionou, assim como Zeca Afonso em Portugal e Dércio Marques no Brasil, como um coletor e intérprete das canções emanadas do povo latino, as retornando ao mesmo povo para que fossem irmanadas agora como símbolo de unidade de todos filhos da Grande Pátria.

“Eu viajei durante anos pelas serranias de minha pátria. Vivi longos anos nas profundas quebradas, nos morros, nas terras sedentas, onde o salitral ostenta seus ilusórios mares e seus falsos diamantes. Passei temporadas entre índios, entre kollas, mestiços e paisanos. Dormi em palhoças, onde a miséria sufoca todas as paisagens. Passei noites nos cumes, nos vales abandonados. (…) A luz que ilumina o coração do artista é uma lâmpada milagrosa que o povo usa para encontrar a beleza no caminho, a solidão, o medo, o amor e a morte.”. (“El canto del viento”, Atahualpa)

Don Ata, como se tornou conhecido, é um artista essencial para entender o cancioneiro latino-americano dos anos 30 em diante, especialmente a Canção Nova (surgida nos anos 60-70, com Victor Jara, Violeta Parra, Mercedes Sosa, Quilapayun, IntiIllimani, etc) em que a cultura popular deixa de ser vista por um viés esteticizante, folclorista, para funcionar como chão cultural do qual se levanta uma voz compromissada com a realidade social da maioria e com a luta por sua transformação. Engajou-se no Partido Comunista Argentino (1945) por alguns anos o que lhe rendeu perseguições, a censura de suas músicas (toda música de Atahualpa foi proibida de ser cantada na Argentina), diversas prisões (veja terrível relato abaixo das torturas que sofreu) e exílio (conheceu e se tornou amigo de Edith Piaf durante o exílio). Em 52 resolveu se afastar do partido, mas não das questões políticas. Toma essa decisão para poder se dedicar integralmente a música e a poesia, onde se encontrava sua missão maior, cantar junto ao povo.

“Em tempos de Perón estive vários anos sem poder trabalhar na Argentina… Me acusavam de tudo, até do crime da semana que vem. Desde essa esquecível época tenho o indicador da mão direita quebrado. Uma vez colocaram sobre minha mão uma máquina de escrever e logo se sentavam em cima, outros saltavan. Buscavan desfazer-me a mão mas não se perceberam de um detalhe: me ferraram a mão direita e eu, para tocar a guitarra, sou canhoto. Todavia hoje, a vários anos desse feito, há tons como o Si menor que me custa fáze-los. Os posso executar porque uso a técnica, a manha; mas realmente me custam.” (“El canto del viento”, Atahualpa)

Eu sou apaixonado pelas composições de Don Ata, a singeleza, por vezes enganadora, donde se esconde sua arguta acidez, corroendo a ordem capitalista (a poeisa de Atahualpa me lembra da poesia de José Marti, como em Versos Sencillos). Certamente, será necessário mais de 1 post pra dar conta desse mestre. Abaixo segue 2 canções clássicas e uma pouco conhecida: 1. “Duerme, negrito”, que ficou tão conhecida através de diversos outros intérpretes, menos na voz de seu intérprete original: nesse vídeo, antes de cantar a canção que se tornou símbolo de identificação dos povos da américa, Atahualpa explica onde a coletou, entre mães trabalhadoras na divisa com a Venezuela! 2. “Los Hermanos”, que foi imortalizada na voz de Mercedes Sosa e, por mais batida que seja, tem uma poesia forte que merece ser revista na voz de seu criador. 3. “Preguntitas a Dios”, dura e ácida canção que parte dos problemas do povo mas não se deixa dominar por sua origem e questiona o próprio povo (Atahualpa lança mão de um recurso muito interessante: se protege do confronto direto com a opinião popular colocando as indagações na voz de uma criança que questiona os adultos).

Ah, Aqui você pode baixar diversos discos de Atahualpa!!!

“DUERME NEGRITO”

Duerme, duerme, negrito, / que tu mamá está en el campo, / negrito…

Te va a traer / codornices para ti. / Te va a traer / rica fruta para ti.
Te va a traer / carne de cerdo para ti. / Te va a traer / muchas cosas para ti
Y si el negro no se duerme, / viene el diablo blanco / y ¡zas! Le come la patita,
¡chacapumba!

Duerme, duerme, negrito, / que tu mamá está en el campo, / negrito…
Trabajando, / trabajando duramente, / trabajando sí.
Trabajando y no le pagan, / trabajando sí.
Trabajando y va tosiendo, / trabajando, sí.
Trabajando y va de luto, / trabajando sí.
Para el negrito chiquitito, / trabajando, sí.
Duramente, sí. / Va tosiendo, sí.
Va de luto, sí. / Duramente, sí

Duerme, duerme, negrito, / que tu mama está en el campo, / negrito…

“LOS HERMANOS”

Yo tengo tantos hermanos / que no los puedo contar. / En el valle, la montaña, / en la pampa y en el mar.

Cada cual con sus trabajos, / con sus sueños, cada cual. / Con la esperanza adelante, / con los recuerdos detrás.

Yo tengo tantos hermanos / que no los puedo contar. / Gente de mano caliente / por eso de la amistad,
Con uno lloro, pa llorarlo, / con un rezo pa rezar. / Con un horizonte abierto / que siempre está más allá.
Y esa fuerza pa buscarlo / con tesón y voluntad.

Cuando parece más cerca / es cuando se aleja más. / Yo tengo tantos hermanos / que no los puedo contar.

Y así seguimos andando / curtidos de soledad. / Nos perdemos por el mundo, / nos volvemos a encontrar.

Y así nos reconocemos / por el lejano mirar, / por la copla que mordemos, / semilla de inmensidad.

Y así, seguimos andando / curtidos de soledad. / Y en nosotros nuestros muertos / pa que nadie quede atrás.

Yo tengo tantos hermanos / que no los puedo contar, / y una novia muy hermosa / que se llama ¡Libertad!

“PREGUNTITAS A DIOS”

Un día yo pregunté: / ¿Abuelo, dónde esta Dios? / Mi abuelo se puso triste, / y nada me respondió.

Mi abuelo murió en los campos, / sin rezo ni confesión. / Y lo enterraron los indios / flauta de caña y tambor.

Al tiempo yo pregunté: / ¿Padre, qué sabes de Dios? / Mi padre se puso serio / y nada me respondió.

Mi padre murió en la mina / sin doctor ni protección. / ¡Color de sangre minera / tiene el oro del patrón!

Mi hermano vive en los montes / y no conoce una flor. / Sudor, malaria y serpientes, / es la vida del leñador.

Y que naide le pregunte / si sabe dénde esta Dios: / Por su casa no ha pasado / tan importante señor.

Yo canto por los caminos, / y cuando estoy en prisión, / oigo las voces del pueblo / que canta mejor que yo.

Si hat una cosa en la tierra / más importante que Dios / es que naide escupa sangre / pa’ que otro viva mejor.

¿Qué Dios vela por los pobres? / Tal vez sí, y tal vez no. / Lo seguro es que Él almuerza / en la mesa del patrón.

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~ por jeffvasques em 30/09/2010.

2 Respostas to “Atahualpa Yupanqui (Argentina) I”

  1. essas verões da mercedes são de chorar. o mundo te agradece por lembrar dessas canções.

  2. desculpe, minha ressaca me fez escrever verões, quando quis dizer versões. rs.

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